terça-feira, 25 de agosto de 2015

BKP Christopher Stampler


Mais um background para a lista de RPGs. Apesar de ele ser cuzão, eu espero que vocês gostem dele xD
ps. Eu tava bem animado com house of cards quando pensei no BKG;
pps. eu sei que na série é Stamper e não Stampler. 
ppps. tenho que me lembrar de pegar a foto "dela" com o Ton;
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Sempre soube que era uma pessoa diferente. Especial. Não especial como essas pedagogias modernas que dizem que cada criança é especial e que não importa o quão incompentete ele seja. Afinal, ele é especial e todos amam ele pelo simples fato de ele ser do jeito que é.
Eu sabia que era especial pelo mundo que eu via. Um mundo lógico, cartesiano e matemático. A matemática e os números estavam em tudo. Eu era bom em entender os números e isso me tornou uma pessoa boa em enteder o mundo.
Aprendi a ler e escrever aos 3 anos. Aos 6 conheci a matemática. Aos 12 já entendia cálculo e aos 14 já fazia meus softwrares de análise numérica e brincava de ser hacker. Isso por si só era a para ser algo especial e eu poderia ter ido para uma universidade aos 15 anos...
...se eu não tivesse os pais que eu tenho. Minha família sempre foi ligada à política e ao partido republicano. Meu pai era conselheiro da cidade (até ficar doente e ser obrigado a se aposentar), minha mãe é uma exemplar dona de casa e meu irmão, Douglas, é chefe de gabinente de um vereador local.
Por serem republicanos e forçarem os métodos de ensinos tradicionais, nunca pude adiantar meus anos de estudos. Isse se tornou um problema depois da quarta série, pois ir para a aula era um sacrifício. Onde já se viu, perder meu precioso tempo “aprendendo” sobre sequências numéricas quando eu já estava começando a resolver minhas primeiras funções logarítimicas e estudando os princípios do cálculo.
Mas bem, não quero transformar essa história em um muro de lamentações. Avancemos para um momento mais legal de minha minha vida.
Meus pais não aceitaram muito bem quando disse que não ia fazer administração pública para me envolver com política e ameaçaram não pagar minha universidade. Tolos. Mal sabiam eles que eu já tinha o dinheiro para dar entrada no financiamento estudantil. Quando eles descobriram que suas ameaças eram totalmente em vão, desistiram.
Ingressei com mérito no MIT, na turma de ciência da computação de 86. No MIT, dividi o quarto com Paul Page. Aprendi muita coisa com ele: a diferença entre ser inteligente e ser esperto, outras formas de poder além do monetário e político, além de técnicas de conversação e convencimento. Como ele dizia: você não precisa ser o cara mais poderoso de uma sala, você só precisa fazer os outros acreditarem nisso.
Nos formamos em 1990 e logo em seguida iniciamos o mestrado. Eu fui para matemática aplicada à economia e ele seguiu na ciência da computação. Nosso plano era simples. Depois do mestrado viria o doutorado e abriríamos nossa empresa de consultoria financeira usando o melhor que os computadores pessoais pudessem oferecer.
Não seguimos muito o nosso plano, porque o MIT era um tanto quanto fraco na parte financeira. Então resolvermos juntar nossa coragem (e falta de bom senso dos nossos 23 anos), voltamos para Despero e abrimos Finantional and Computers a primeira empresa do estado de análise financeira com apoio de computadores.
Aconteceu de não termos ficado milionários primeiro mês, nem no primeiro semestre, ou no primeiro ano. Tínhamos um produto bom. Uma idéia revolucionária. Mas os custos operacionais eram elevados e gastávamos muito em publicidade. Moral da história: o negócio crescia, mas não na velocidade que precisávamos.
Mas, às vezes, a oportunidade aparecem de formas que não conseguimos imaginar. No nosso caso, a oportunidade apareceu numa oferta de parceria. Quase caímos da cadeira quando aquele homem de óculos de cabo pérola nos ofereceu uma parceria para o grupo que ele representava. A proposta era simples, nós iríamos liderar pequenos projetos na parte de P&D. Como pagamento, ganharíamos a apoio deles em divulgação além de poder usar a estrutura computacional deles.
Isso era incrível. Com uma única tacada, poderíamos resolver nossos dois principais problemas. Depois de algumas conversas, definimos que eu iria para a empresa e trabalharia lá enquanto Paul ficaria responsável por cuidar das coisas da FiComps.
Bom.
Na nova empresa foi quando eu comi o pão que o diabo amassou. Tive que me mudar mais para perto do centro para não perder tanto tempo com o ônibus, troquei o dia pela noite para acompanhar o fuso horário de Pequim; aprendi russo numa velocidade record; entre outras coisas.
O homem de óculos era meu superior aparecia semanalmente com novas instruções de coisas para pesquisar e resolver questões administrativas. Cada mês que passava, ele aumentava as atividades e o ritmo de trabalho. Era um inferno trabalhar com ele ou fazer qualquer projeto a longo prazo, mas não dei o braço à torcer. No final de quase 6 anos, eu tava trabalhando por 12 horas diárias, liderando 4 grupos de pesquisa e já tinha trocado totalmente o dia pela noite.
Trabalhava em ritmo alucinado, mas me sentia realmente bem por isso. Liderar e comandar pessoas em projetos de pesquisa era algo para o qual eu tinha nascido e eu era especialmente bom nisso.
Lá para outubro de 1996, recebi um chamado do homem de óculos para uma reunião num escritório no centro de Despero. Era a primeira vez que ele me convocava para ir em algum lugar – geralmente ele é que vinha até mim.
Chegando lá, ele me apresentou a uma mulher. Ela era uma das mulheres mais bonitas que eu já vi. Ela tinha um ar indiferente, olhos atentos e uma postura de quem poderia carregar o mundo nas costas se ela quisesse. Apesar disso, ela falava com uma voz aveludada e de um jeito doce. Ela poderia ter qualquer coisa entre 25 e 30 anos e vestia um terninho creme perfeitamente bem ajustado que ressaltava ainda mais o seu corpo.
Ela me indicou um assento e disse que, em última instância, ela era a mulher para quem eu trabalhava. Ela tinha se interessado pelas minhas habilidades desde quando eu e Paul abrimos a FiComps. E começou a conversar, fazendo perguntas sobre minha opinião sobre negócios, jogos de poder, modernização, Internet entre outras coisas. Depois de 45 minutos, fui dispensado com o convite para voltar no dia seguinte.
Essa rotina se seguiu até o último dia do ano. Eu passava 45 minutos por noite, durante todas as noites conversando com ela. Às vezes, ela trazia algum jogo de estratégia como Xadrez ou Go, às vezes ela perguntava sobre a minha família, relacionamentos e passado, mas quase sempre ela perguntava minhas opiniões sobre negócios e tomávamos vinho. Ela demonstrou um grande interesse pela minha tese de mestrado sobre padrões de topos e fundos no mercado e como poderíamos criar mecanismos para prever essas oscilações.
No último dia do ano, nosso local de encontro seria um local diferente. Ela me convidou para pasar a virada numa confraternização na casa dela. Imaginei que iria encontrar alguns figurões e teria a chance de fazer alguns acordos comerciais. Arrumei minha melhor combinação sport chic e fui para o endereço que ela me deu, às 9:00 PM como ela indicou.
Achei o horário meio cedo, mas nunca se sabe como são esses caras podres de rico. Eles costumam ter seus horários próprios.
Cheguei no local (cabe um parênteses para dizer que tive prender a respiração dentro do Taxi, porque ela morava numa mansão) e achei meio estranho o fato de não ter nenhum carro parado. Talvez a festa fosse em algum outro lugar.
Fui atendido por um mordomo que me indicou um escritório e disse que logo a patroa iria descer e me encontrar. Fiquei esperando e olhando os livros. Não sei quanto tempo fiquei lá esperando, mas estava começando a me questionar se tinha perdido o horário, quando senti uma mão tocar no meu ombro.
Me virei e lá estava ela. Linda, com a pele clara contrastando com o cabelo e aqueles olhos grandes olhando para mim. Além disso, ela estava vestindo algo que parecia ser uma camisola semi-transparente que mal escondiam seus mamilos eretos.
Não tive tempo para observar muito, porque ela já foi me beijando. O toque dela era, ao mesmo tempo, frio e cheio de calor. Em menos de meia hora, ela já estava deitada na mesa comigo dentro dela. Ela me arranhava com força e isso só me dava forças para ir mais e mais forte. E ficamos lá até quase a meia noite, alterando entre posições. Comigo sempre tentando ir mais forte, mais rápido e mais fundo. Me sentia um animal com toda a sua força e vigor que mordia, chupava e lambia ela e estava dando tudo o que eu tinha.
Foi, sem a menor sombra de dúvidas, a melhor foda da minha vida.
Gozamos juntos, em cima de um divã vermelho.
Caí exausto e sem forças. Ela se apoiou no meu peito e eu fiquei fazendo carinho nela. Depois de alguns instantes assim, ela me perguntou se eu queria experimentar algo mais apimentado e forte.
Na forma que eu estava, eu aceitaria praticamente qualquer coisa que ela pedisse. Ela foi me conduzido pela casa. Ela me levou a um porão. O local lá parecia ter abafamento de som e um cheiro meio mofado. No meio, havia uma daquelas camas de tortura antigas - tipo que prendia os pés e mãos da vítima com grilhões. No fundo havia um grande relógio daqueles modelos antigos e pesados.
Ela me bem trancou e me tranquilizou. Disse que era a primeira vez que fazia aquilo, que eu poderia sentir alguma dor, mas ela iria se esforçar ao máximo para ser o mais suave possível.
E assim ela começou a me beijar e acariciar. Ela subiu no meu colo e continuou me mordendo. Senti um misto de dor e prazer. Aos poucos tudo foi ficando tão gostoso, tão suave, tão sereno, tão sem dor, tão escuro. Quando o sino terminou as doze badaladas, eu estava morto.
Minhas memórias seguintes são dolorosas e assustadoras. Não vale a pena dizer como os primeiros momentos de um novo vampiro são agoniantes. Como é sofrida a luta entre a nova cria da noite a sua besta.
A vida como eu conhecia acabou e um universo de novas oportunidades se abriu para mim.
Depois disso, tive 45 dias seguidos de treinamento. Aprendi sobre os segredos da minha família, sobre como caçar, sobre minha função no clã, os dons de Caim e por aí vai. Também tive que tomar algumas preocauções, do tipo avisar para a minha família que eu acabei pegando férias inesperadas entre outras coisas menos relevantes.
Por fim, cá estou, minha última noite antes de eu voltar para meu serviço, com uma secretária carniçal, com um motorista particular, com uma nova equipe para implementar os modelos propostos na minha tese, em suma com uma nova vida (ou melhor, com uma não-vida).
Eu sempre soube que eu era uma pessoa especial. Hoje faço parte daqueles que estão no poder. Hoje, sou um dos reis da noite. Hoje sou parte de um grupo, de um clã, de uma famíla que lidera a mais poderosa organização de vampiros existentes. Hoje, eu sou um Ventrue.



Christopher Stampler

Douglas Stampler

Paul Page

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

BKP Stiff


21/01/2xxx – Relatório semanal. Esse é o primeiro relatório após a mudança. Acabamos de mudar para a casa nova. O Capitão Cheng ajudou com os detalhes da mudança, contrato e instalação inicial. As meninas ficaram com o quarto grande, eu e o Duque ficamos em quartos seperados.
Nossa localização é estratégica, estamos num bairro neutro em relação à nossa raça e ainda assim estamos a menos de uma simples caminhada até a sede regional de um grupo de preservação dos homo-sapiens. Além disso, existem boatos que alguns dos nossos estão sendo atacados durante à noite e houve alguns sumiços. 

Vamos poder observar bem isso.

Para a vizinhança, somos um grupo de universitários que se mudou e logo começará o ano escolar. Vamos manter nossos poderes escondidos e seguir com as investiguações.
Nota: o Duque solicitou, se possível, uma TV para ele poder acompanhar o campeonato de ownerball.

28/01/2xxx – Relatório semanal. Recebemos a TV há dois dias. Foi muito comemorado. Comecei a conhecer as pessoas da vizinhança, o disfarce de estudante sustentado pelos pais parece ter dado certo. As únicas preocupações que eles parecem ter conosco é se vamos fazer muito barulho e se vamos deixar a casa fedida.
Ann se tornou a responsável pela limpeza dos cômodos em comum, Duque e Vivi são os responsáveis pela nossa alimentação.
Estou enviando as contas para pagamento. As reuniões públicas do grupo de preservação dos homo-sapiens só começam em Abril. Fico aguardo de instruções sobre o que fazer.
Ann montará um esquema para monitorarmos as ruas ao redor da nossa quadra em busca de qualquer tipo de atividade suspeita.

04/02/2xxx - Relatório Semanal. Conforme o orientado, eu e Ann (na forma de um jovem casal curioso sobre a vida) nos inscrevemos para participar do Grupo de Preservação dos homo-sapiens da igreja. O atendente manteve por um bom tempo aquela conversa de que o grupo iria levar bastante tempo para voltar, mas mudou de ideia quando molhamos a mão dele. Ele falou existe uma outra reunião para o povo já iniciado e que elas nunca param. Ele disse que consegue colocar a gente lá dentro, mas isso terá um preço caro. Estou mandando as informações de pagamento em anexo.
Duque anda meio entediado. É nossa primeira missão em campo e ele sente falta ação.
Gostaria de pedir a autorização para, semanalmente, levar meu time para alguma região afastada para podermos treinar com espaço e usando plenamente meus poderes.

11/02/2xxx – Relatório semanal. No final do mês vamos entrar na reunião para o povo iniciado. Ontem começamos nosso treinamento no local que vocês indicaram. Dei uma surra tão forte em Duque que levará algum tempo até se recuperar completamente. Vivi está cuidando dele.
Também aproveitamos para decorar um pouco a casa. Vivi espalhou umas fotos antigas, da quando começamos a andar juntos pela casa e estamos pensando em adotar um cachorro ou algum mascote.

18/02/2xxx – Relatório semanal. Confesso que fui pego de surpresa com o pedido para contar a história do time antes de nos tormarnos um time. A história de nós 4 é realmente bem parecida. Mais ou menos aos 8 anos, descobrimos nossos poderes e não fomos muito bem aceitos na comunidade ou família. Acabos nos tornando párias das pessoas dos nossos próprios sangues.
Foram Duque e a Ann que me encontraram. Bem, pra ser sincero, nós nos esbarramos. Estava fugindo com as frutas que eu roubei numa feira e acabei batendo de frente com eles. Eles entenderam rapidamente o que estava rolando e me deram cobertura e desde então eu tenho estado com eles.
Vivi foi a última a entrar no nosso grupo, ela também é 6 anos mais nova do que a gente. 

Estávamos andando juntos há uns 3 anos e encontramos uma garotinha tentando defender um cachorro de um grupo de guris que estavam brincando de colocar uns rojões nele. 

Eles começaram a inticar com ela e então nós vimos o poder dela. Foi uma das coisas mais belas e sinistras que eu já vi. Ela poderia ter matados eles, mas ela não o fez porque “toda vida é importante e devemos nos esforçar ao máximo para prezervá-la”. Cara, isso vindo de uma menina meio pálida, com cara meio doente, que chega na altura do seu peito, mas tem poder para destruir uma cidade-estado inteira é algo MUITO assustador.

Bem, depois de uns 2 anos juntos, encontrei o Capitão Cheng num evento beneficiente aos Divinos. Ocorreu um ataque de algum grupo fanático e meu time ajudou a fazer com que não houvesse nenhma baixa. Chamamos bem a atenção dele que nos convidou para fazer parte da Frente Libertária dos Divinos. Passamos um bom tempo em treinamento e em missões pequenas e finalmente estamos em uma missão um pouco mais complexa.

25/02/2xxx – Relatório semanal. Não aconteceu nada de especial.

04/03/2xxx – Relatório semanal. Tivemos nossa primeira reunião no grupo dos iniciados. Eu e Ann fomos como um casal. Parece ser um grupo extremamente organizado, mas não violento.

11/03/2xxx - Relatório semanal. Não aconteceu nada de especial.

18/03/2xxx - Relatório semanal. Não aconteceu nada de especial.

25/03/2xxx - Relatório semanal. Continuamos indo nas reuniões. Já estamos bem enturmados com todos. O discurso parece estar se tornando mais inflado e violento. Aconselho observar com mais atenção isso.

01/04/2xxx – Relatório semanal. Houve uma briga entre um divino e um sapiens. Mesmo sem usar os poderes, o divino deu uma surra no sapiens. O Grupo de Preservação dos homo-sapiens está usando como o caso como meio para atacar a nossa espécie. Os discursos estão falando sobre tentar um levante. Logo algum idiota fará alguma burrada.

08/04/2xxx – Relatório semanal. Um casal foi morto aqui perto. Não temos informações se eram divinos ou não. Não conseguimos ter acesso aos dados de autópsia, mas os vizinhos comentam que eles pareciam ter marcas de socos, chutos e facadas. Ninguém assumiu a autoria dos ataques.

15/04/2xxx – Relatório semanal. O Grupo de Preservação dos homo-sapiens, está começando a se organizar. Eles pretendem fazer uma faxina étnica, passando de casa em casa e fazendo exame genético – a recusa em fazer o exame implicará na auto-declaração como divino. Os divinos serão convidados a mudarem de bairro. Semana que vem farão exames nos iniciados. Preciso de 4 exames falsos para não sermos descobertos. Aconselho uma rápida intervensão, nem que seja para atrasarmos eles. 

Ann

Duque

Stiff

Capitão Cheng e Stiff

Vivi
 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Crônicas Vampirescas - A Origem Secreta de Takiamura

Muito aconteceu desde o dia que começamos a acompanhar a história do Jovem Kuwabara. Nos últimos episódios, descobrimos que ele também é uma personalidade de um outro vampiro, chamado Takiamura. 
De onde ele vem? Quem é ele? E como tudo realmente aconteceu?
Todas essas perguntas serão respondidas no programa de hoje.

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Meu caro Kuwabara,

Não tenho palavras para expressarmos o quanto estamos felizes por finalmente poder nos dirigir diretamente a você nessa carta. Sabemos que você ainda está se recuperando da sua última luta, mas existem coisas que precisam ser ditas antes que seja tarde demais. Uma tempestade está chegando e precisaremos da sua ajuda para que consigamos sair bem.
Já me adianto que essa carta tratará de assuntos delicados e você gostará do que você lerá, pois descobrirá que muito do que você acreditava ser verdade, muito do que você sentiu e muito do que você se lembra não existiu realmente. Se pudéssemos, te pouparíamos de toda essa situação, mas voltamos a dizer, uma tempestade está chegando. Para você realmente nos entender e entender tudo isso, vamos explicar algumas coisas: a) o que não é verdade sobre a sua vida e como sempre estivemos presentes, mesmo sem você notar; b) quem foi Michael Takiamura antes do abraço; c) quem foi Michael Takiamura depois do abraço; d) como viemos parar em Florianópolis, e; e) como você realmente nasceu.
Vamos aos fatos, não fomos abraçados aos 20 anos, mas sim aos 32; não somos o 7º filho de uma família só de mulheres, isso uma das lendas de como nascem os lobisomens; não somos o filho que treina artes marciais de uma família de vendedores de macarrão, isso é Kung-fu Panda; não tiramos nossa motivação da morte dos nossos pais na nossa frente, enquanto éramos crianças, esse é o Batman; não tivemos nosso grande chamado para a vida contra o crime depois de tentarmos enfrentar dois grandões indo incomodar uma garotinha, esse é o Blankman.
*
Sabemos que você já se questionou se havia alguém lá em cima olhando por você ou facilitando alguma coisa para o seu lado. Temos uma boa e uma má notícia: a má notícia é que não tem nada lá em cima esperando pela gente. A boa notícia é que havia alguém olhando por você. Muita gente, olhou e ainda olha por você. Queremos que você note alguns pontos realmente bem interessantes sobre a sua vida e algumas das “coincidências” e “lances de sorte da sua vida”.
A) quando você “foi abraçado”, mesmo com a “morte” de dois Brujahs, ninguém te questionou nada ou te perturbou sobre isso;
B) você conseguiu emprego e proteção do Takashi quase que instantaneamente, mesmo sendo um filho da lua estrangeiro;
C) você ganhou um par de espíritos protetores mesmo sendo um “neófito”;
D) quando você invadiu a casa do Nosferatu, você foi caminhando direto para o sub-solo, mesmo sem conhecer o local e lá, você correu para pegar algo que não tinha a menor relação com a missão (por sinal, aquilo ainda está escondido);
G) Alguém te enviou para entregar uma carta para o senhor La Sombra que quase te forçou a ir para uma missão e estragar diretamente os planos do Júlio;
F) No dia que você ganhou a Yuki-onna, apareceu um livro com a lenda da Donzela de Gelo e dos Irmãos da Tempestade;
G) Leon sabia exatamente onde e como te encontrar, além de saber que você era e da possibilidade de você ser um shifter;
H) Por fim, subitamente, a Jéssica achou que seria uma boa ideia ter você como um dos peões dela, mesmo com você tendo a fama de trazer problemas;
Viu? Essas são apenas algumas das situações onde influenciamos e mexemos alguns pauzinhos para o seu bem. Para o nosso bem. Isso, que ainda nem falamos dos apagões e dos sonhos que você teve. Na realidade, éramos nós que estávamos assumindo o controle.
Mas bem, agora que você já sabe o que não é verdade na nossa história, vamos contar o que É verdade.
*
Nasci no dia 13 de outubro de 1972. Era o primeiro filho que vingou de Hitoshi Takiamura e Teruko Takiamura, fui registrado com o nome de Michael Haru Takiamura. As fotos mostram que era bebê gordinho e saudável.
Na minha infância, passei bastante tempo brincando com as outras crianças, na Liberdade. Por causa da minha grande imaginação, acabava criando novos jogos e formas de brincar. Fui uma criança feliz e arteira.
Na minha adolescência acabei me isolando. Passava um bom tempo comigo mesmo. Seja estudando, ouvindo música ou lendo. Fazia as mesmas coisas que os outros jovens, mas tinha a companhia da minha imaginação. Fui me fechando e me tornando cada vez mais quieto.
Meus pais se preocupavam comigo, mas explicava para eles - no auge da minha sabedoria dos 14 anos - que era muito mais divertido ficar sozinho do que sair com aquele bando de Zé Ruela que não sabia a diferença entre curtir um anime e se tornar uma árvore de natal por causa daquele anime. Se quisesse fazer algum amigo, criaria um para mim. Também, foi nessa época que comecei a fazer aulas de Kendô com Otoosan e ajudar a Okaasan com Ikebana.
Foi nesse ritmo que segui minha vida por mais 7 anos. Como um cara normal, mas meio imaginativo que estava orgulhosamente na 4 fase de engenharia de mecatrônica na Universidade de São Paulo. Mas, como diria o poeta, a vida é uma caixinha de surpresas.
Descobrimos que aqueles problemas que Otoosan tinha para ir no banheiro eram consequência de um câncer intestinal. Mais do que isso, o câncer já estava em estado avançado e Otoosan faleceu em menos de 4 meses depois. Daí, em diante, minha vida começou a entrar em espiral descendente.
*
Tentei seguir com a graduação e me formar, mas tive que parar pois algum tempo depois Okaasan quem ficou doente. Sem seu esteio e seu parceiro, ela perdeu o rumo e parou de se cuidar. O laudo médico pode até dizer que ela morreu de uma pneumonia mal cuidada, mas sei que ela morreu de amor.
Não que sinta algum tipo de ressentimento pela morte dos meus genitores, mas o fato é que não estava preparado para o que viria em seguida e acabei comendo o pão que o diabo amassou. Tive que me virar em bicos trabalhando em lanchonetes, sendo homem sanduíche e vendendo quase tudo o que tinha.
O Mesmo assim, não desanimei. Achava que teria um futuro grande esperando por mim e passava as noites sonhando em como me tornaria uma pessoa foda e reconhecida.
De certa forma, creio que esses pensamentos e fantasias me ajudaram bastante. Quando não sabia a quem recorrer ou pedir conselho, imaginava Otoosan com suas palavras de sabedoria. Ou quando estava com medo, imaginava Okaasan me dando coragem – foram muitos momentos onde senti medo ou fiquei em dúvida de como agir.
*
No meu aniversário de 24 anos, minha vida começou a mudar. Comecei a ter a estranha sensação de que alguém me seguia e observava. Na época parecia algo surreal que pudesse ter algum tipo de stalker, mas a sensação não ia embora.
Logo depois do meu aniversário, achei um panfleto na caixa de correspondência, dizendo que a nipo-paulista tava procurando professores de japonês. Foi uma entrevista fácil. Aparentemente fui o único que se interessou pela vaga. Com desse emprego, tudo começou a fluir e logo em seguida consegui uma vaga para lecionar Kendô.
Comecei a me sentir mais confiante, mas aquela sensação de ser seguido não sumia.
Aos 26 anos, me mudei para uma pequena kitnet alugada perto da Augusta. Ficava meio contra-mão e era numa vizinhança meio tensa, mas era algo que consegui com o MEU trabalho e amava morar lá.
Aos 27 dei meu grande pulo em nível social e comprei uma lambreta vermelha. Cara... como amava aquela lambreta vermelha.
Aos 28 anos minha vida mudou novamente ao conhecer a mulher da minha vida.
Aos 32 ela me matou.
Mas uma coisa de cada vez, não precisamos por os carros na frente dos bois.
*
Pois bem, tudo começou alguns meses depois de comprar a lambreta vermelha. Durante a última aula noturna, notei que havia um aluno novo a mais na turma. Achei aquilo estranho porque sempre me avisam quando vai entrar alguém novo para me preparar e passar atividades mais leves e explicar um pouco sobre o caminho da espada. Esperei até o fim da aula e fui falar com meu novo aluno.
Quando ele tirou o ken, meu queixo foi ao chão. Por trás daquele capacete, havia uma bela garotinha com cabelos verdes e grandes olhos. Mais do que isso, era uma menina fofa e doce que ficou conversando comigo, de forma animada, até fechar a sede. Ofereci carona para ela, mas ela disse que estava de boa e que não precisava me preocupar.
Aquilo começou a fazer parte da minha rotina. Trabalhava 3 noites por semana na parte do Kendô e em todas as aulas ela aparecia e ficava conversando comigo até a sede fechar, indo embora sozinha.
B – que levou um bom tempo até descobrir que seu verdadeiro nome era Beatrice – era uma garota extramente interessante. Havia algum tipo de magnetismo nela que fazia sempre querer estar perto dela e me sentia à vontade para falar sobre qualquer coisa. Apesar de parecer tão jovem (ela disse ter 18 anos, mas tinha quase certeza que ela tinha uns 15), ela costumava ter opiniões bem maduras e um tanto quanto secas sobre filosofia e relacionamentos interpessoais.
E assim seguiu-se minha vida por mais um maravilhoso ano e meio. B-chan se tornou, mesmo com as mudanças de humor, minha melhor amiga e minha confidente.
*
Faltando 3 meses para completar 29, B-chan me veio com um convite estranho:
- Papai quer te conhecer e te convidou para ir lá em casa no fim da semana, logo após os treinos.
- Ahn?! Como assim? - Fiquei realmente desnorteado com aquele convite.
- Bem – Começou ela – Falo de você para ele há algum tempo. Pra ser sincera, falo bastante de você para ele. Finalmente, consegui despertar algum interesse nele para te conhecer.
- B-chan, você tem certeza que essa é uma boa ideias? Sabe, não sei se vou causar uma boa impressão. Quer dizer, sou apenas um mero professor de uma associação cultural.
- Não se preocupe, ele vai gostar de você, basta você ser você mesmo. Talvez você também conheça um amigo da família que vai se interessar bastante pelas suas habilidades com a espada.
- Céus. Gostaria mesmo de ter a sua confiança. Mas me diga, que tipo de pessoas são esses caras?
- Nhaaa, relaxe, você vai descobrir amanhã. Agora tenho que ir. Kissu, kissu.
E saiu saltitando sem dar tempo de responder ou pensar em algo. Às vezes ela fazia esse tipo de coisa e tinha essas mudanças súbitas. Quase parecendo ser outra pessoa.
A visita na casa de Leon foi experiência bem bizarras. Tive que falar sobre os mais diferentes assuntos, responder aleatórias e beber bastante vinho.
Também tive que enfrentar o amigo da família (Jeremias) numa partida “amistosa” de Kendô. Digo amistosa porque fiquei quase 30 minutos desviando e tentando aparar (com pouco sucesso) os golpes dele. Estranhamente, ele nem parecia ter se cansado. Me senti o pior dos espadachins e ainda tive que ouvir uma série de comentários sobre a minha respiração, postura e como parecia esquecer que um artista marcial deve encarar seu corpo como um instrumento para servir à arte de guerra.
Saí de lá às 4 da manhã meio inebriado com o ar, meio sem saber o que tinha acontecido e com a estranha sensação de ter sido testado em níveis que não compreendia muito bem.
No treino da semana seguinte, B-chan não apareceu sede. Foi a primeira vez que ela faltou desde o dia que eu a conheci.
No treino seguinte, ela também não apareceu.
Lá pela seguinda semana comecei a com medo de ter dado alguma bola fora infinitamente grande. Pensei em passar perto da casa dela, mas notei que também não me lembrava direito onde ela morava. Ora tinha certeza que a casa ficava numa travessa na Faria Lima, ora poderia jurar que a casa ficava em algum ponto perto da Paulista.
*
Com o sumiço dela, fui me isolando mais e mais. Minhas conversas comigo mesmo se intensificaram.
Outro ponto estranho era que ninguém parecia se lembrar dela, ou saber quem era Beatrice.
Como isso era possível? Será que minha amiguinha era apenas uma tentativa de um solteirão de quase 30 anos de se sentir menos sozinho? E se, tudo não passou de um sonho? Ela era real? O que é mesmo real? Estou enlouquecendo? Pode um louco questionar sua sanidade? Aquele zumbido no fundo da minha cabeça eram...
...vozes?
Andava distraído, sem fome, meio desanimado. Fiquei nesse estado de desolação por uns 9 meses. Perdi quase que 15 kilos e quase fui expulso da associação.
*
Mas, como uma pasta de dente chega ao seu fim, toda essa sensação ruim de não saber se ela existiu, de questionar minha sanidade, de ficar ouvindo aquelas vozes ao fundo acabou.
Num instante, estava lá.
No outro no estava.
Assim como o medo do escuro parece algo bobo durante o dia, todos os medos que senti da falta da minha B-chan passaram.
Mal sabia que minha vida estava prestes a dar um novo salto.
*
Mais ou menos uns 3 dias depois de tudo isso acontecer, quando estava prestes a dormir depois de uma aula excepcionalmente animada, a campainha toca.
Achei aquilo realmente estranho, afinal, não tinha amigos, quanto mais amigos que pudessem aparecer naquela hora da noite. Sorrateiramente, fui até a cozinha, peguei um facão e fui atender a porta.
Lá estava ela. Baixinha, com cabelos verdes e com uma expressão extremamente irritada. Cheguei a me questionar se estava feliz por vê-la. Para ser bem sincero, acho que estava mais é com medo – muito medo – dela.
Creio que em outras situações, iria abraçá-la e dizer o quanto senti sua falta. Uma voz interna me disse que isso era uma idéia ruim. Ela se adiantou e falou apenas duas frases.
- Papai quer vê-lo. Vamos?
Aquilo parecia mais como uma ordem do que um convite e não teria coragem para desobedecer qualquer coisa que ela me pedisse naquele momento.
Chegando lá, encontrei um Leon totalmente diferente. Ao invés daquele cara mais estilo paizão doce e meio rockeiro, o Leon que me esperava estava mais para grande homens de negócios, com um terno que parecia valer muito mais do que a minha casa e minha lambreta vermelha juntas.
O que B tinha de irritada e mal humorada, Leon completava com um leve interesse e fria cordialidade.
- Sinto muito pelo tratamento recebido, ela não tem passado muito bem nos últimos dias desde que perdeu um brinquedo. - Ele disse, ao me cumprimentar. Aquilo não me fazia o menor sentido e ele não parecia ter intenção de me explicar. Ao invés disso, ele seguiu: - Por favor, tome um assento e beba um gole de vinho, nosso tete-à-tete será breve, mas nem por isso devemos esquecer dos bons modos. - Comecei a beber e me questionar quando que essa noite iria acabar.
- O motivo pelo qual eu o convoquei aqui foi para lhe fazer uma proposta de emprego. Tenho ouvido tanto sobre você - ele se vira para ela - que pretendo lhe dar uma chance, mesmo me questionando sobre as suas capacidades para me servir.
- E qual é o serviço que você tem em mente, senhor Leon? - Quando que essa sessão de ofensas gratuitas iria acabar? E qual é o motivo para isso?
- Quero que você trabalhe como acompanhante, motorista, segurança e secretário particular para minha descendente. Você trabalhará das 19:00 às 6:00, cuidará da manutenção dos nossos carros e ficará por perto para fazer o que ela requisitar. Você não ouvirá nada, não falará nada e será invisível em todo o resto do tempo, à menos que te digam para fazer o contrário. O seu salário inicial será de R$5.500,00 mais todas as despesas de alimentação, transporte e roupas. Além disso, você receberá alguns treinamentos sobre como se portar, direção defensiva, luta com armas e quaisquer outras habilidades que acharmos que você precisa melhorar. O seu turno começa em uma semana, que acreditamos ser o tempo necessário para você se despedir daquele local onde você trabalha, conseguir roupas descentes e poder descansar. Alguma pergunta?
Ainda hoje, não temos certeza se perdemos algum ponto da conversa, mas não nos lembramos de ter dito que aceitaríamos o serviço mas estávamos com medo de dar uma de engraçadinho e perder essa grande bocada.
*
Entrei nos meus 30 anos, com um emprego muito bom. Ganhando muito dinheiro mas comendo o pão que o diabo amassou. Trabalhar para B era algo maravilhoso, mais ou menos na metade do tempo. Na outra metade, era uma amostra grátis do inferno.
Nessa época que comecei a notar algumas coisas estranhas tanto nela quanto no seu pai. Ambos eram extramente caprichosos e com graves mudanças de humor (bipolaridade?), eles nunca saíam durante o dia, iam com frequência em uma sala comercial na Paulista, pareciam ter longos diálogos falando sozinhos e tinham quase que um 6º sentido para saber o que estava pensando. Ambos pareciam ter uma queda para se envolver com garotos e garotas de programa, mas sem nenhuma preferência em especial. E tinham alguns pedidos realmente estranhos.
No top 5 dos pedidos mais sem noção de B, consigo listar:
* o dia que ela pediu para cobrir todos os espelhos da casa para a visita de um futuro associado;
* que ela não me deixava exterminar nenhum tipo de animal ou ser vivo que estivesse na casa ou nos arredores, por mais sujo ou nojento que pudesse ser;
* umas 4 ou 5 vezes que ela pediu para lamber o meu pescoço;
* ela mandou me alimentar com comidas ricas em ferro e tomar bastante sol;
* uma vez por semana, ia buscar e enviar itens no setor de doação de sangue no hospital;
Eles sempre tinham aquele clima de que estavam prestes a entrar numa guerra e precisavam se preparar para quando as batalhas começassem.
Hoje, vemos como fomos tolos. Ou inocentes que não enxergavam uma palma na frente dos narozes. Se tivesse o mesmo clima que eles, talvez não estivesse morto, agora.
Hoje, vemos que fomos caras de sorte. Se tivéssemos no mesmo clima que eles, talvez não estivéssemos onde estou agora.
É como naquela música: “Se soubesse tudo o que sei agora, teria feito tudo exatamente igual”.
Mas bem, vamos falar, agora, sobre como morri e como viemos parar onde nós estamos.
*
Já estava trabalhando há dois anos e gostava muito daquilo. Apesar disso, era nítido que a situação estava ficando cada vez mais tensa. Tanto B quanto Leon andavam muito ocupados, com reuniões e mais reuniões. Meu trabalho era muito o de motorista.
Numa fatídica noite, tudo deu errado. Era uma reunião num bairro mais isolado e com fábricas abandonadas. Estava esperando, calmamente, fumando meu cigarro e olhando para o horizonte, quando ela veio muito puta. Parecia uma criança mimada que não ganhou um brinquedo de natal, uma criança assustadora, mas ainda assim uma criança. Ela entrou batendo a porta e mandou voltar rápido pra casa, porque tudo tinha saído errado e Leon precisava ser informado o quanto antes.
Minhas memórias são confusas e tenho palavras para descrever como foram assustadores aqueles instantes de carro girando, carro batendo e sendo empurrado. Tudo isso há menos do que um kilômetro de casa. Meu último pensamento como um ser vivo foram algo do tipo, eles realmente estavam seguindo a gente.
*
Look around, around, around...

Acordamos num quarto estranhamente familiar, mas sem sabermos bem onde estávamos. O mundo parecia meio embaçado, meio desfocado. Como se as cores tivessem sido alteradas. Nosso paladar e olfato pareciam meio dopados e sentíamos dor em cada maldito osso do nosso corpo.
Onde estamos?
Eu não sei.
Sim, você sabe.
O que aconteceu?
Você não lembra?
Não, não lembro. Me ajude.
Ouvimos vozes discutindo. Duas pessoas berravam bem perto da gente. Quase conseguíamos ouvir os gritos na nossa cabeça.
Deixe sua mente flutuar.

- COM QUE DIREITO VOCÊ ABRAÇOU ELE?
- COM O DIREITO DE QUEM NÃO QUERIA QUE ELE MORRESSE.
- HAVIAM OUTROS JEITOS DE EVITAR A SUA MORTE.
- PARTE DO CRÂNIO DELE ESTAVA EXPOSTO, NÃO CONSEGUI CONTAR QUANTOS OSSOS QUEBRADOS E ELE TAVA TODO DESFIGURADO. MESMO SE ELE SOBREVIVESSE COM O SANGUE, TERIAM GRANDES CHANCES DE ELE VIRAR UM NÃO-FUNCIONAL. É ISSO QUE VOCÊ QUER? DESPERDIÇAR TODO O TEMPO INVESTIDO APENAS POR DETALHES COMO IMAGEM PÚBLICA?
*soc, tow, pow*
Insira aqui qualquer onomatopeia para tapa forte pra caralho. Aquele tapa parece que foi dado na nossa cara. Aquilo nos deixou com muita raiva. Sentimos, pela primeira vez a ira vermelha subindo pelo corpo. Ainda bem que estávamos presos.
- Sua garota de tola.- O tom de voz voltou ao timbre mais sombrio, frio, calmo e assustador. - Depois de todos esses anos comigo, achei que você já tinha aprendido alguma coisa relevante. A vida de outros, principalmente do rebanho, não vale tanto quanto me expôr. Mas bem, vá ver a sua cria que pensarei em como resolver as suas falhas.
Pausa e silêncio.
Deve ter demorado uns 50 minutos até B aparecer. Vê-la foi quase como ver um anjo. Na época, não saberíamos dizer o que estávamos sentindo, mas era algo bem próximo ao amor.
Não vamos entrar em detalhes sobre como foram nossos primeiros dias, pois você tem uma ideia de como foi. Passamos a primeira semana amarrado naquela cama enquanto conversávamos e provávamos que não iria fazer nenhum tipo de besteira como tentar voltar para a minha vida.
Depois de termos sido transformado, nossa rotina passou a seguir um ritmo constante. MUITO acelerado, mas constante. Éramos realojados a cada 4 meses, sempre morando em quartos escuros que tinham uma cama, livros, abajur e espaço para treinar.
Passamos 7 anos tendo contato apenas com B e Jeremias. Eles vinham visitar 3 ou 4 vezes na semana, sempre sozinhos e nos treinavam nas atividades mais variadas. Jeremias falava sobre a vida vampírica, sobre artes, exercícios, filosofia, etiqueta e cultura geral. B falava sobre a família, a loucura, ocultismo, a Rede e os dons vampíricos.
Em 3 ocasiões especiais, recebi a visita de Leon. Em cada visita, ganhei uma personalidade nova: Stephany Todd (baseada em B), Isaías Shepherd (baseado em Jeremias) e Ley Stampler (baseado em Leon). Não vou falar sobre eles, pois ainda me dói muito pensar naqueles que se foram. Além desse lance das personalidades, Leon versava sobre o nosso lado da família.
Não sabemos à partir de qual geração foi desenvolvido a linha do camaleão, mas sabemos que os membros do nosso ramo conseguem se ligar de uma forma diferente à Rede. Em diferentes situações e por diferentes motivos, conseguímos sintetizar um pedaço da Trama, buscar seu conhecimento e seu conteúdo criando uma nova entidade, com conhecimentos e personalidades próprios. O conhecimento e correta manipulação dessa habilidade permite criar vampiros extremamente e adaptáveis à qualquer tipo de situação.
No nosso caso, os laços são criados pela ligação de sangue. Cremos que, de alguma forma, quando nos enlaçamos à alguém, nosso cérebro se adapta ao sentimento criado pela pessoa que nos enlaçou. Esse processo de adaptação permite essa criação de um novo ser. Podemos dizer que somos os pais (junto com a pessoa que nos enlaçou) dessa nova personalidade.
O processo de liberação é um pouco mais dolorosos e depende de cada caso. Em alguns casos, pois precisamos praticamente matar essa personalidade, já em outros precisamos não darmos mais motivos para elas ficarem aqui. Além disso, quanto mais tempo, mais adaptado e maior seja a força de vontade da personalidade, mais difícil será destruí-la.
E a vida foi seguindo. Li, estudei, treinei a aprendi muito. Sabia que estava sendo preparado para algo, apesar de não ter ideia do que era.
*
Na terceira visita de Leon, ele me disse que meu treinamento recluso estava chegando ao fim e que iria trocar a vida de Tremere aprendiz para uma vida no mundo lá fora.
Quando ele disse isso, achei que finalmente iria conviver com outros vampiros ou usar meus dons para poder curtir uma vida boa, mas estava errado. A noção de vida no mundo lá fora era que poderia viver num cubículo 2x3, numa vizinhança barra pesada da zona leste (não que existam vizinhanças boas na zona leste, mas aquela era especialmente ruim), com direito a sair 3 vezes por semana para me alimentar e trabalhando dentro de casa fazendo sacolas.
Ao me apresentar ao meu novo cafofo, B me explicou que se sobrevivesse dois anos seria promovido de um grupo semelhante ao Esquadrão Suicida (tive que pesquisar para entender que ela estava falando daquele time dos quadrinhos) e poderia não morrer imediatamente se falhasse em alguma missão.
*
De alguma forma, consegui sobreviver. Se existe algum Deus, ele deve ser malkaviano. Cheguei muito perto de ser descoberto e quase me tornei mestre em ofuscação nesse período.
Nesses anos de serviço, aprendemos um pouco sobre onde tínhamos nos metido.
Ele tem algumas personalidades, a que mais fala comigo é a o Stanley. Creio que as personalidades dele tem alguma ligação direta com o nome delas. Afinal Stan é o apelido natural de Stanely e é terrivelmente parecido com Satan (apesar de ser bem acurado). A personalidade que se apresenta ao mundo é Leon e parece ter vindo de camaLEON como a nossa linha. Ainda cremos visto uma terceira personalidade que era mais marcial e voltada para o combate (foi essa a personalidade que te ensinou a despertar as outras).
Conhecemos três personalidades de B: Beatrice, Bianca e Bill. A princesa doce, a rainha louca e o príncipe guerreiro. Você conheceu apenas Bianca com a sua loucura, mudanças de humor e vício pela vitae e Bill com seu jeito prático de ver as coisas que é capaz de estacar a própria cria para ela aprender a ser um malkaviano de verdade.
Você não conheceu Beatrice e isso é algo que deveria te deixar triste. Beatrice é como um frescor de primavera no nosso mundo hostil. Ela é a garota por nos apaixonamos, que passou tanto tempo conversando conosco e discutindo sobre as mais diferentes coisas. Meu coração se alegra só de lembrar da forma como ela mexia a cabeça para tirar a franja de cima dos olhos ou a forma como ela me encarava mascando chiclete e conversava comigo.
Poderíamos preencher mais de dez cartas só para falar sobre ela, mas cremos que isso não seja tão necessário.
Leon é o criador de B e parece ter alguma influência na cidade. Ele se juntou a alguns outros membros/mortais de certa influência e criaram um grupo sem nome que eles chamam de a Organização.
Ela é uma organização paramilitar multidisciplinar/culto de guerra/tentativa de um grupo de seres poderosos de não morrer para os planos de outros seres poderosos. Nessa vibe meio culto meio grupo militar, ela não força ou evita guerras, apenas espera, se prepara e toma um lado.
Ela funciona em células espalhadas por todo o país (talvez por todo o mundo). Essas células são semi-independentes ou pelo menos as células daqui de São Paulo sejam assim.
O tempo que ficamos em São Paulo, lidamos com uma (ou algumas) célula(s) paulista(s).

Mas o que mais importa, e como importa, foi que sobrevivemos e fomos promovidos a um time menor da organização. Apesar de não ser muita coisa, já era o suficiente para não morrermos instantaneamente numa falha.
Em todo o meu tempo de vampiro, consegui descobri poucas coisas sobre a Organização. Pra ser sincero, você descobriu muito mais do que. Mas vamos ao que descobri:
  1. A Organização não possui um nome em especial;
  2. Ela é uma organização paramilitar multidisciplinar/culto de guerra/tentativa de um grupo de seres poderosos de não morrer para os planos de outros seres poderosos;
  3. Ela funciona em células espalhadas por todo o país (talvez por todo o mundo);
  4. Ela possui recursos;
  5. Ela não força ou evita guerras, ela apenas espera, se prepara e toma um lado;
  6. Existem pelo menos 3 níveis na organização: as pessoas que aparentemente mandam, as pessoas que não morrem imediatamente ao cometerem um erro e as pessoas que morrem ao cometerem um erro;
Enquanto era membro do Esquadrão, trabalhava sozinho. Recebia mensagens de um celular especial dizendo para onde deveria ir. Lá encontrava um pacote com equipamentos e informações da missão. Nunca me envolvi ou soube quem eram os outros membros ou no que realmente estava trabalhando.
Quando fui promovido, B me acompanhou em alguns trabalhos. Foi num desses trabalhos onde as coisas começaram a dar errado, de novo.
*
O trabalho era relativamente simples. Perigoso, mas simples. Iríamos com um carniçal até perto de uma base anarquista para copiar alguns arquivos militares de um computador de uma sala em especial.
Não sei em que ponto nós falhamos, mas enquanto estávamos copiando os arquivos, a sala foi invadida. B conseguiu se ofuscar, mas não fui tão rápido. Não importa o quão vampírico você seja ou o quão bem treinado você esteja, uma bala de semi automática sempre dói. Céus como aquilo doeu. Meu último pensamento antes de cair foi que deveria ter ofuscado mais rápido.
*
Acordei no meu quarto, recebendo uma transfusão de sangue, meu corpo me sentia um queijo suíço cheio de sangue. Meu cabelo já estava duro e seco, assim como minha roupa, assim como a coberta, assim como a cama, assim como todo o resto do maldito quarto.
B estava no telefone, ela falava num tom rápido enquanto andava pelo quarto. Já tínhamos aprendido a usar os auspícios para futricar nas ligações alheias e conseguir ouvir ela falando com Leon.
- Foi terrível – disse ela – acho que eles descobriram o segurança, ou tinham algum tipo de defesa no computador. Não sei. Só sei que que quase morremos.
- Ao menos, vocês conseguiram a informação?
- Bem, parcialmente, não tudo, mas não tenho...
- Ótimo. - Cortou ele – vocês acham que foram vistos ou identificados?
- Não tenho certeza. Talvez sim. Tomei minhas precauções com aqueles que consegui ver, mas existem as câmeras. E se eles pegaram Tobias, bem, provavelmente …
- Entendo. Então realmente, precisarei adiantar um dos planos. Como está o garoto?
- Ele está aqui deitado na cama, recebendo uma transfusão de vitae, fingindo que está dormindo para ouvir essa ligação.
- Estaque-o que depois passarei mais informações.
Ao ouvir isso, tentei me levantar e fugir, mas estava muito ferido e fui facilmente estacado pela B.
*
Acordei uma semana depois. No mesmo quarto, com uma mala preparada na minha frente. Leon estava sentado com as pernas cruzadas olhando pra mim. Sua roupa bem alinhada, seu olhar sereno e sua cadeira bem estofada contrastava totalmente com o resto do quarto ainda ensanguentado. Havia uma mala de viagem na sua frente.
Uma vez disse ao fundo: a julgar pelo tom do sangue, ficamos 2 ou 3 dias apagados, a roupa e a postura indicam que ele passou por bastante trabalho e está numa posição de liderança e sutil afetamento, quase como um Ventrue...
- Finalmente você acordou, quero que você preste bem atenção e só faça perguntas quando for lhe dado à palavra, pois temos algum tempo mas ele precisa ser bem utilizado. - Me sentei para ouvir melhor as instruções. - Sua existência está ameaçada aqui e ter você aqui me colocará em uma possível situação de risco. Normalmente isso traria a sua morte, mas você já mostrou seu valor e lhe concederei o privilégio de poder viver. Falei com alguns associados [será que era a associação?] e consegui negociar bons termos. Preste bem atenção atenção no que eu expliquei para meu associado:
1º Minha cria abraçou por impulso uma pessoa que estava de olho há algum tempo;
2º Esse neófito trabalhou por algum tempo para mim e eu estava quase conseguindo trazer essa cria ao público sem causar nenhum tipo de mal-estar na cidade;
3º Ele e minha cria cometeram uma falha em um determinado trabalho e estão sob risco de vida;
4º Mandarei cada um para o exílio em um lugar diferente, com as memórias de meu último descendente apagadas para ele achar que é um neófito abandonado;
5º A cria trabalhará em troca de abrigo, segurança e moradia até ele conseguir se manter vivo;
6º Meu associado tem plenos direitos de fazer o que quiser desde que não leve a cria à morte final e corrobore com a história do neófito;
7º Minha assinatura nesse contrato se dará por você se ligando ao sangue com meu associado.
- Alguma pergunta?
Balancei negativa a cabeça.
- Ótimo, agora vamos aos pontos que VOCÊ precisa saber:
1º Não vou apagar a SUA memória.
2º Quando você se enlaçar, será um novo EU para você;
3º Modificarei a memória de seu NOVO eu;
4º Foi foi abraçado por acaso, quando acordou encontrou ESSA carta [agora você já sabe como conseguimos a nossa carta];
5º Você usará esse tempo em Florianópolis para TREINAR e se aperfeiçoar. Dentro de 10 ou 20 anos acontecerão eventos tumultuosos e quero ter bons soldados.
- Alguma pergunta?
Balancei novamente a cabeça.
- Ótimo. Agora vem a última parte do que precisamos fazer. Mas não serei quem fará isso. O próprio Leon será responsável por levar seus outros EUs ao alento. Change.
Foi a primeira vez que vimos ele mudar. Num simples piscar, os olhos dele mudaram daquele azul gélido para o castanho tão calmo, doce e tranquilo.
*
Uma personalidade não some simplesmente. Não é o tipo de coisa que pode simplesmente morrer. Esse é um ponto importante e quero que você preste realmente atenção nisso. Cada personalidade É parte de você. É parte de nós. Somos todos um, mas o sangue que corre em nossas veias potencializa cada parte e cada traço, junta com o sangue que recebemos e acaba criando um novo ser.
Quando você olhar novamente para suas personas quero que você entenda que existe um pouco de cada um dos seus aliados dentro de você.
O processo de encontrar o alento consiste em compreender isso e se tornar uno com a sua persona e notar que não existe razão para que a sua mente esteja separada se podemos estar juntos (em outras palavras, você precisa não dar mais motivos para aquele pedaço da sua personalidade estar separado de você). Não é um processo fácil, mas é possível de fazer.
Depois de muito tempo, conseguimos levar a um alento temporário Stephany, Isaías e Ley. Em algum canto de nossa mente, existem três personas quase tão velha quanto nós e que logo despertarão.
Depois dessa experiência quase que religiosa, Stanley voltou ao controle, se levantou e nos disse.
- Seu voo sai em 3 horas, aproveite para tomar um banho, na sua bagagem tem instruções de onde ir. Você ficará na casa de uns conhecidos, sob a tutela de Jeremias. Mandei comprar algumas roupas e colocar algum dinheiro, isso deve te garantir o sustento por algum tempo. Lembre-se de me ligar quando você se enlaçar.
*
O resto da história você deve imaginar, conhecemos TK, você nasceu (juro que essa frase nos pareceu menos gay em nossa mente) e cuidou de tudo como se você existisse desde o princípio. TK cumpriu muito bem a parte dele e nos garantiu por mais de um ano nossa existência e cuidado.
O motivo pelo qual você se sentir tão aéreo e ausente quanto B veio ou quando encontramos Leon foi porque nós assumimos e cuidamos de tudo. Assim como fomos nós quem tomamos a facada de B e conversamos tanto com Leon naquela plataforma mental.
Agora, cá estamos, com nossas outras personalidades prestes a encontrarem seu verdadeiro líder. Espero que você tenha lido essa mensagem até o fim e que você entenda que o que fizemos foi pela nossa sobrevivência.

Com carinho,

 Michael Takiamura.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Crônicas Vampirescas - Kuwabara e Emanuele I Pt. 1

Em todos esses meus seis anos como vampiro, aprendi que existem vários sinais que demonstram que a noite será terrível: acordar e ser atacado, acordar e encontrar alguém encarando você com cara de mal, acordar e encontrar uma arma encarando você, etc...
Mas, são poucas as coisas que dão um sinal tão claro quanto você acordar e ver que seu corpo acordou bem antes do e está caçando, sendo que você não faz ideia de quem é que está controlando-o. 
Como vocês conseguem imaginar, foi bem assim que eu comecei minha noite. Com a boca no pescoço de um cara grande, forte e com um chapéu engraçado. Para meu espanto, todas as personas conhecidas estavam no backstage junto comigo. Isso só significava uma única coisa, problema novo. Esperei o meu outro eu terminar de se alimentar, me aconcheguei no trono do rei e fiquei tentando absorver ao máximo sobre meu novo companheiro.

Existem poucas coisas melhores do que acordar após um looooongo sono, ter uma boa foda e sangue à vontade. Parece que fiquei dormindo por tanto tempo que sinto vontade de mergulhar não somente as minhas presas, mas todo o meu corpo nesse pescoço e ir aproveitando cada milímetro de pele desse marinheiro. Infelizmente, tenho pouco tempo livre. Estou de volta à América e tenho um mundo para conquistar.
Termino de me alimentar. O gado me serviu bem. Sigo ofuscada pelas sombras. Estou procurando uma senhora indefesa que se compadeça de alguém que foi assaltado. A história que irei contar para ela é tão ruim que poderia ganhar um Oscar de melhor enredo. Sigo olhando as pessoas, quando ouço uma voz falando comigo:
- Hey, vá para um lugar reservado para podermos conversar.
A voz parecia estranhamente familiar e vindo da minha cabeça. Deixando meus planos de lado, entro no primeiro beco que eu encontro e me jogo nas latas de lixo. 

Ótimo. Ele parece não ter me ignorado. Não quero nem pensar nos problemas que eu teria se ele não quisesse falar comigo. Não consegui absorver muita coisa sobre meu novo companheiro. Vi que o rosto dele parece todo cortado e cheio de cicatrizes (acho que ele é do tipo brigão), ele se move com uma grande graça como se estivesse flutuando e possui olhos atentos.
Espero ele se sentar.
Latas de lixo.
Ele realmente tem influência de nosferatus. Dou algumas instruções no backstage e tento iniciar nossa conversa.

Me aconchego. Ouço aquela voz conversar com o vazio ou com pessoas que ele parece ter certeza que estão ouvindo:
- Remy, meu bispo, caso alguém apareça e nos veja aqui, tente desconversar e fazer ela sumir. - Finalmente me lembro de onde conheço essa voz. Claro, fui tão estúpida. 
- John, meu cavalo, se ele falhar e precisarmos de chumbo, você se torna responsável pela nossa segurança. - Num instante, todas as memórias dos últimos dias vieram a mente. Os trabalhos, as conversas, os personagens, as vozes, a transformação...
- Sensei, minha rainha, na minha ausência, você é responsável por tudo e por manter o corpo em ordem.

Depois de passar as instruções, ficou aqueles segundos de um silêncio constrangedor. Ele parecia mais ansioso para conversar comigo, mas eu não sabia como começar o papo. Afinal, não é todo dia que você nota que o seu cérebro se partiu mais um pouco. Fiz a primeira pergunta que me veio à mente:
- Você me reconhece por quem sou e pelo o que faço?
- Sim. - A voz dele é bem mais doce e suave do que eu esperava, não combina em nada com o local que estamos ou com o seu rosto.
- E o que você vê em mim?
- Você é Michael Kuwabara, filho mais novo dos vendedores de macarrão que presenciou a morte dos pais e tentou se tornar um justiceiro por causa disso.
Ok.
Ok..
Ok...
Céus. Nada ok. Ele realmente sabe quem eu sou. Ou pelo menos acha que sabem. Ignorando as outras perguntas que tinha preparado mentalmente (coisas do tipo quem é você e o que você faz), resolvo ir direito para o que é mais importante. 
- Como você sabe quem eu sou?
- Ora, benzinho. Fui quem criou você.

Ele não conseguiu disfarçar o choque ao descobrir a verdade. Pobre Kuwabara, sempre foi tão nobre mas tão ingênuo em seus ideais. Tolo curioso. Vou conseguir incomodar muito ele por causa disso. Começo, debochando dele e repetindo o que ele disse, numa ótima imitação, digo: 
- Imagino que você tenha uma história que queira me contar. - Volto ao meu tom normal - Sim, você imagina. Assim, como quase tudo na sua vida, você só vai ficar na imaginação.

Que pessoa irritante. Já to de saco cheio desse tipo de coisa e de pessoas achando que podem me dar ordens dentro da minha cabeça. Pego ela pelo pulso e levo-a à força para algum quarto no backstage. Espero que o Remy não seja estúpido a ponto de querer sair do local onde estamos escondidos. 
Dentro da minha própria mente, cada persona assume uma aparência e roupas verdadeiras sem as limitações do mundo externo. Nesse ponto, tive a primeira surpresa sobre meu novo companheiro. No fim das contas, ele é ela. Ela tinha um cabelo escuro e liso que ia até o ombro, lábios carnudos, olhos castanhos e um sorriso infintamente debochado.
- Uuull. Pelo visto, você andou ficando mais machinho nesse tempo que eu passei dormindo.
Sei que ela fala isso me incomodar e tentar fazer o sair do sério. Não vou cair assim tão facilmente. Uso meu olhar mais gélido e ordeno.
- Me conte a sua história.
- Ah, quanta frieza e poder - ela leva as mãos a boca numa caricatura de impressionada. Ela vem caminhando suavemente até perto de mim. Perigosamente perto. Nossos narizes estão quase se tocando e isso não parece incomodá-la. - Você sabe como dizem: conhecimento nunca vem de graça. Você está disposto a sacrificar parte da sua sanidade para saber mais sobre mim?

Hmmm... Que gostosinho. Faz tempo que eu não o sinto em meus braços. O tesão é grande e a forma como ele sorri ante a minha pergunta, só ampliou a vontade que estou de fuder com ele a noite toda. Mas preciso me controlar. Para jogar com Kuwabara é necessário fazer ele crer que não está controlando nada, mesmo quando quem está perdendo o controle e subindo pelas paredes são eu.

- Ótimo - riu ela mais uma vez - A sua curiosidade, ainda vai matar você. Mas que, é Emanuele Redcliff para dizer como qualquer um deve viver a própria vida?
Num movimento rápido, ela segurou minhas mãos e me empurrou contra uma parede que até alguns instantes atrás não estava ali, lambeu minha orelha e continuou:
- Seja bem vindo ao inferno, garoto. Eu serei sua guia.