quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Crônicas Vampirescas - A Origem Secreta de Takiamura

Muito aconteceu desde o dia que começamos a acompanhar a história do Jovem Kuwabara. Nos últimos episódios, descobrimos que ele também é uma personalidade de um outro vampiro, chamado Takiamura. 
De onde ele vem? Quem é ele? E como tudo realmente aconteceu?
Todas essas perguntas serão respondidas no programa de hoje.

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Meu caro Kuwabara,

Não tenho palavras para expressarmos o quanto estamos felizes por finalmente poder nos dirigir diretamente a você nessa carta. Sabemos que você ainda está se recuperando da sua última luta, mas existem coisas que precisam ser ditas antes que seja tarde demais. Uma tempestade está chegando e precisaremos da sua ajuda para que consigamos sair bem.
Já me adianto que essa carta tratará de assuntos delicados e você gostará do que você lerá, pois descobrirá que muito do que você acreditava ser verdade, muito do que você sentiu e muito do que você se lembra não existiu realmente. Se pudéssemos, te pouparíamos de toda essa situação, mas voltamos a dizer, uma tempestade está chegando. Para você realmente nos entender e entender tudo isso, vamos explicar algumas coisas: a) o que não é verdade sobre a sua vida e como sempre estivemos presentes, mesmo sem você notar; b) quem foi Michael Takiamura antes do abraço; c) quem foi Michael Takiamura depois do abraço; d) como viemos parar em Florianópolis, e; e) como você realmente nasceu.
Vamos aos fatos, não fomos abraçados aos 20 anos, mas sim aos 32; não somos o 7º filho de uma família só de mulheres, isso uma das lendas de como nascem os lobisomens; não somos o filho que treina artes marciais de uma família de vendedores de macarrão, isso é Kung-fu Panda; não tiramos nossa motivação da morte dos nossos pais na nossa frente, enquanto éramos crianças, esse é o Batman; não tivemos nosso grande chamado para a vida contra o crime depois de tentarmos enfrentar dois grandões indo incomodar uma garotinha, esse é o Blankman.
*
Sabemos que você já se questionou se havia alguém lá em cima olhando por você ou facilitando alguma coisa para o seu lado. Temos uma boa e uma má notícia: a má notícia é que não tem nada lá em cima esperando pela gente. A boa notícia é que havia alguém olhando por você. Muita gente, olhou e ainda olha por você. Queremos que você note alguns pontos realmente bem interessantes sobre a sua vida e algumas das “coincidências” e “lances de sorte da sua vida”.
A) quando você “foi abraçado”, mesmo com a “morte” de dois Brujahs, ninguém te questionou nada ou te perturbou sobre isso;
B) você conseguiu emprego e proteção do Takashi quase que instantaneamente, mesmo sendo um filho da lua estrangeiro;
C) você ganhou um par de espíritos protetores mesmo sendo um “neófito”;
D) quando você invadiu a casa do Nosferatu, você foi caminhando direto para o sub-solo, mesmo sem conhecer o local e lá, você correu para pegar algo que não tinha a menor relação com a missão (por sinal, aquilo ainda está escondido);
G) Alguém te enviou para entregar uma carta para o senhor La Sombra que quase te forçou a ir para uma missão e estragar diretamente os planos do Júlio;
F) No dia que você ganhou a Yuki-onna, apareceu um livro com a lenda da Donzela de Gelo e dos Irmãos da Tempestade;
G) Leon sabia exatamente onde e como te encontrar, além de saber que você era e da possibilidade de você ser um shifter;
H) Por fim, subitamente, a Jéssica achou que seria uma boa ideia ter você como um dos peões dela, mesmo com você tendo a fama de trazer problemas;
Viu? Essas são apenas algumas das situações onde influenciamos e mexemos alguns pauzinhos para o seu bem. Para o nosso bem. Isso, que ainda nem falamos dos apagões e dos sonhos que você teve. Na realidade, éramos nós que estávamos assumindo o controle.
Mas bem, agora que você já sabe o que não é verdade na nossa história, vamos contar o que É verdade.
*
Nasci no dia 13 de outubro de 1972. Era o primeiro filho que vingou de Hitoshi Takiamura e Teruko Takiamura, fui registrado com o nome de Michael Haru Takiamura. As fotos mostram que era bebê gordinho e saudável.
Na minha infância, passei bastante tempo brincando com as outras crianças, na Liberdade. Por causa da minha grande imaginação, acabava criando novos jogos e formas de brincar. Fui uma criança feliz e arteira.
Na minha adolescência acabei me isolando. Passava um bom tempo comigo mesmo. Seja estudando, ouvindo música ou lendo. Fazia as mesmas coisas que os outros jovens, mas tinha a companhia da minha imaginação. Fui me fechando e me tornando cada vez mais quieto.
Meus pais se preocupavam comigo, mas explicava para eles - no auge da minha sabedoria dos 14 anos - que era muito mais divertido ficar sozinho do que sair com aquele bando de Zé Ruela que não sabia a diferença entre curtir um anime e se tornar uma árvore de natal por causa daquele anime. Se quisesse fazer algum amigo, criaria um para mim. Também, foi nessa época que comecei a fazer aulas de Kendô com Otoosan e ajudar a Okaasan com Ikebana.
Foi nesse ritmo que segui minha vida por mais 7 anos. Como um cara normal, mas meio imaginativo que estava orgulhosamente na 4 fase de engenharia de mecatrônica na Universidade de São Paulo. Mas, como diria o poeta, a vida é uma caixinha de surpresas.
Descobrimos que aqueles problemas que Otoosan tinha para ir no banheiro eram consequência de um câncer intestinal. Mais do que isso, o câncer já estava em estado avançado e Otoosan faleceu em menos de 4 meses depois. Daí, em diante, minha vida começou a entrar em espiral descendente.
*
Tentei seguir com a graduação e me formar, mas tive que parar pois algum tempo depois Okaasan quem ficou doente. Sem seu esteio e seu parceiro, ela perdeu o rumo e parou de se cuidar. O laudo médico pode até dizer que ela morreu de uma pneumonia mal cuidada, mas sei que ela morreu de amor.
Não que sinta algum tipo de ressentimento pela morte dos meus genitores, mas o fato é que não estava preparado para o que viria em seguida e acabei comendo o pão que o diabo amassou. Tive que me virar em bicos trabalhando em lanchonetes, sendo homem sanduíche e vendendo quase tudo o que tinha.
O Mesmo assim, não desanimei. Achava que teria um futuro grande esperando por mim e passava as noites sonhando em como me tornaria uma pessoa foda e reconhecida.
De certa forma, creio que esses pensamentos e fantasias me ajudaram bastante. Quando não sabia a quem recorrer ou pedir conselho, imaginava Otoosan com suas palavras de sabedoria. Ou quando estava com medo, imaginava Okaasan me dando coragem – foram muitos momentos onde senti medo ou fiquei em dúvida de como agir.
*
No meu aniversário de 24 anos, minha vida começou a mudar. Comecei a ter a estranha sensação de que alguém me seguia e observava. Na época parecia algo surreal que pudesse ter algum tipo de stalker, mas a sensação não ia embora.
Logo depois do meu aniversário, achei um panfleto na caixa de correspondência, dizendo que a nipo-paulista tava procurando professores de japonês. Foi uma entrevista fácil. Aparentemente fui o único que se interessou pela vaga. Com desse emprego, tudo começou a fluir e logo em seguida consegui uma vaga para lecionar Kendô.
Comecei a me sentir mais confiante, mas aquela sensação de ser seguido não sumia.
Aos 26 anos, me mudei para uma pequena kitnet alugada perto da Augusta. Ficava meio contra-mão e era numa vizinhança meio tensa, mas era algo que consegui com o MEU trabalho e amava morar lá.
Aos 27 dei meu grande pulo em nível social e comprei uma lambreta vermelha. Cara... como amava aquela lambreta vermelha.
Aos 28 anos minha vida mudou novamente ao conhecer a mulher da minha vida.
Aos 32 ela me matou.
Mas uma coisa de cada vez, não precisamos por os carros na frente dos bois.
*
Pois bem, tudo começou alguns meses depois de comprar a lambreta vermelha. Durante a última aula noturna, notei que havia um aluno novo a mais na turma. Achei aquilo estranho porque sempre me avisam quando vai entrar alguém novo para me preparar e passar atividades mais leves e explicar um pouco sobre o caminho da espada. Esperei até o fim da aula e fui falar com meu novo aluno.
Quando ele tirou o ken, meu queixo foi ao chão. Por trás daquele capacete, havia uma bela garotinha com cabelos verdes e grandes olhos. Mais do que isso, era uma menina fofa e doce que ficou conversando comigo, de forma animada, até fechar a sede. Ofereci carona para ela, mas ela disse que estava de boa e que não precisava me preocupar.
Aquilo começou a fazer parte da minha rotina. Trabalhava 3 noites por semana na parte do Kendô e em todas as aulas ela aparecia e ficava conversando comigo até a sede fechar, indo embora sozinha.
B – que levou um bom tempo até descobrir que seu verdadeiro nome era Beatrice – era uma garota extramente interessante. Havia algum tipo de magnetismo nela que fazia sempre querer estar perto dela e me sentia à vontade para falar sobre qualquer coisa. Apesar de parecer tão jovem (ela disse ter 18 anos, mas tinha quase certeza que ela tinha uns 15), ela costumava ter opiniões bem maduras e um tanto quanto secas sobre filosofia e relacionamentos interpessoais.
E assim seguiu-se minha vida por mais um maravilhoso ano e meio. B-chan se tornou, mesmo com as mudanças de humor, minha melhor amiga e minha confidente.
*
Faltando 3 meses para completar 29, B-chan me veio com um convite estranho:
- Papai quer te conhecer e te convidou para ir lá em casa no fim da semana, logo após os treinos.
- Ahn?! Como assim? - Fiquei realmente desnorteado com aquele convite.
- Bem – Começou ela – Falo de você para ele há algum tempo. Pra ser sincera, falo bastante de você para ele. Finalmente, consegui despertar algum interesse nele para te conhecer.
- B-chan, você tem certeza que essa é uma boa ideias? Sabe, não sei se vou causar uma boa impressão. Quer dizer, sou apenas um mero professor de uma associação cultural.
- Não se preocupe, ele vai gostar de você, basta você ser você mesmo. Talvez você também conheça um amigo da família que vai se interessar bastante pelas suas habilidades com a espada.
- Céus. Gostaria mesmo de ter a sua confiança. Mas me diga, que tipo de pessoas são esses caras?
- Nhaaa, relaxe, você vai descobrir amanhã. Agora tenho que ir. Kissu, kissu.
E saiu saltitando sem dar tempo de responder ou pensar em algo. Às vezes ela fazia esse tipo de coisa e tinha essas mudanças súbitas. Quase parecendo ser outra pessoa.
A visita na casa de Leon foi experiência bem bizarras. Tive que falar sobre os mais diferentes assuntos, responder aleatórias e beber bastante vinho.
Também tive que enfrentar o amigo da família (Jeremias) numa partida “amistosa” de Kendô. Digo amistosa porque fiquei quase 30 minutos desviando e tentando aparar (com pouco sucesso) os golpes dele. Estranhamente, ele nem parecia ter se cansado. Me senti o pior dos espadachins e ainda tive que ouvir uma série de comentários sobre a minha respiração, postura e como parecia esquecer que um artista marcial deve encarar seu corpo como um instrumento para servir à arte de guerra.
Saí de lá às 4 da manhã meio inebriado com o ar, meio sem saber o que tinha acontecido e com a estranha sensação de ter sido testado em níveis que não compreendia muito bem.
No treino da semana seguinte, B-chan não apareceu sede. Foi a primeira vez que ela faltou desde o dia que eu a conheci.
No treino seguinte, ela também não apareceu.
Lá pela seguinda semana comecei a com medo de ter dado alguma bola fora infinitamente grande. Pensei em passar perto da casa dela, mas notei que também não me lembrava direito onde ela morava. Ora tinha certeza que a casa ficava numa travessa na Faria Lima, ora poderia jurar que a casa ficava em algum ponto perto da Paulista.
*
Com o sumiço dela, fui me isolando mais e mais. Minhas conversas comigo mesmo se intensificaram.
Outro ponto estranho era que ninguém parecia se lembrar dela, ou saber quem era Beatrice.
Como isso era possível? Será que minha amiguinha era apenas uma tentativa de um solteirão de quase 30 anos de se sentir menos sozinho? E se, tudo não passou de um sonho? Ela era real? O que é mesmo real? Estou enlouquecendo? Pode um louco questionar sua sanidade? Aquele zumbido no fundo da minha cabeça eram...
...vozes?
Andava distraído, sem fome, meio desanimado. Fiquei nesse estado de desolação por uns 9 meses. Perdi quase que 15 kilos e quase fui expulso da associação.
*
Mas, como uma pasta de dente chega ao seu fim, toda essa sensação ruim de não saber se ela existiu, de questionar minha sanidade, de ficar ouvindo aquelas vozes ao fundo acabou.
Num instante, estava lá.
No outro no estava.
Assim como o medo do escuro parece algo bobo durante o dia, todos os medos que senti da falta da minha B-chan passaram.
Mal sabia que minha vida estava prestes a dar um novo salto.
*
Mais ou menos uns 3 dias depois de tudo isso acontecer, quando estava prestes a dormir depois de uma aula excepcionalmente animada, a campainha toca.
Achei aquilo realmente estranho, afinal, não tinha amigos, quanto mais amigos que pudessem aparecer naquela hora da noite. Sorrateiramente, fui até a cozinha, peguei um facão e fui atender a porta.
Lá estava ela. Baixinha, com cabelos verdes e com uma expressão extremamente irritada. Cheguei a me questionar se estava feliz por vê-la. Para ser bem sincero, acho que estava mais é com medo – muito medo – dela.
Creio que em outras situações, iria abraçá-la e dizer o quanto senti sua falta. Uma voz interna me disse que isso era uma idéia ruim. Ela se adiantou e falou apenas duas frases.
- Papai quer vê-lo. Vamos?
Aquilo parecia mais como uma ordem do que um convite e não teria coragem para desobedecer qualquer coisa que ela me pedisse naquele momento.
Chegando lá, encontrei um Leon totalmente diferente. Ao invés daquele cara mais estilo paizão doce e meio rockeiro, o Leon que me esperava estava mais para grande homens de negócios, com um terno que parecia valer muito mais do que a minha casa e minha lambreta vermelha juntas.
O que B tinha de irritada e mal humorada, Leon completava com um leve interesse e fria cordialidade.
- Sinto muito pelo tratamento recebido, ela não tem passado muito bem nos últimos dias desde que perdeu um brinquedo. - Ele disse, ao me cumprimentar. Aquilo não me fazia o menor sentido e ele não parecia ter intenção de me explicar. Ao invés disso, ele seguiu: - Por favor, tome um assento e beba um gole de vinho, nosso tete-à-tete será breve, mas nem por isso devemos esquecer dos bons modos. - Comecei a beber e me questionar quando que essa noite iria acabar.
- O motivo pelo qual eu o convoquei aqui foi para lhe fazer uma proposta de emprego. Tenho ouvido tanto sobre você - ele se vira para ela - que pretendo lhe dar uma chance, mesmo me questionando sobre as suas capacidades para me servir.
- E qual é o serviço que você tem em mente, senhor Leon? - Quando que essa sessão de ofensas gratuitas iria acabar? E qual é o motivo para isso?
- Quero que você trabalhe como acompanhante, motorista, segurança e secretário particular para minha descendente. Você trabalhará das 19:00 às 6:00, cuidará da manutenção dos nossos carros e ficará por perto para fazer o que ela requisitar. Você não ouvirá nada, não falará nada e será invisível em todo o resto do tempo, à menos que te digam para fazer o contrário. O seu salário inicial será de R$5.500,00 mais todas as despesas de alimentação, transporte e roupas. Além disso, você receberá alguns treinamentos sobre como se portar, direção defensiva, luta com armas e quaisquer outras habilidades que acharmos que você precisa melhorar. O seu turno começa em uma semana, que acreditamos ser o tempo necessário para você se despedir daquele local onde você trabalha, conseguir roupas descentes e poder descansar. Alguma pergunta?
Ainda hoje, não temos certeza se perdemos algum ponto da conversa, mas não nos lembramos de ter dito que aceitaríamos o serviço mas estávamos com medo de dar uma de engraçadinho e perder essa grande bocada.
*
Entrei nos meus 30 anos, com um emprego muito bom. Ganhando muito dinheiro mas comendo o pão que o diabo amassou. Trabalhar para B era algo maravilhoso, mais ou menos na metade do tempo. Na outra metade, era uma amostra grátis do inferno.
Nessa época que comecei a notar algumas coisas estranhas tanto nela quanto no seu pai. Ambos eram extramente caprichosos e com graves mudanças de humor (bipolaridade?), eles nunca saíam durante o dia, iam com frequência em uma sala comercial na Paulista, pareciam ter longos diálogos falando sozinhos e tinham quase que um 6º sentido para saber o que estava pensando. Ambos pareciam ter uma queda para se envolver com garotos e garotas de programa, mas sem nenhuma preferência em especial. E tinham alguns pedidos realmente estranhos.
No top 5 dos pedidos mais sem noção de B, consigo listar:
* o dia que ela pediu para cobrir todos os espelhos da casa para a visita de um futuro associado;
* que ela não me deixava exterminar nenhum tipo de animal ou ser vivo que estivesse na casa ou nos arredores, por mais sujo ou nojento que pudesse ser;
* umas 4 ou 5 vezes que ela pediu para lamber o meu pescoço;
* ela mandou me alimentar com comidas ricas em ferro e tomar bastante sol;
* uma vez por semana, ia buscar e enviar itens no setor de doação de sangue no hospital;
Eles sempre tinham aquele clima de que estavam prestes a entrar numa guerra e precisavam se preparar para quando as batalhas começassem.
Hoje, vemos como fomos tolos. Ou inocentes que não enxergavam uma palma na frente dos narozes. Se tivesse o mesmo clima que eles, talvez não estivesse morto, agora.
Hoje, vemos que fomos caras de sorte. Se tivéssemos no mesmo clima que eles, talvez não estivéssemos onde estou agora.
É como naquela música: “Se soubesse tudo o que sei agora, teria feito tudo exatamente igual”.
Mas bem, vamos falar, agora, sobre como morri e como viemos parar onde nós estamos.
*
Já estava trabalhando há dois anos e gostava muito daquilo. Apesar disso, era nítido que a situação estava ficando cada vez mais tensa. Tanto B quanto Leon andavam muito ocupados, com reuniões e mais reuniões. Meu trabalho era muito o de motorista.
Numa fatídica noite, tudo deu errado. Era uma reunião num bairro mais isolado e com fábricas abandonadas. Estava esperando, calmamente, fumando meu cigarro e olhando para o horizonte, quando ela veio muito puta. Parecia uma criança mimada que não ganhou um brinquedo de natal, uma criança assustadora, mas ainda assim uma criança. Ela entrou batendo a porta e mandou voltar rápido pra casa, porque tudo tinha saído errado e Leon precisava ser informado o quanto antes.
Minhas memórias são confusas e tenho palavras para descrever como foram assustadores aqueles instantes de carro girando, carro batendo e sendo empurrado. Tudo isso há menos do que um kilômetro de casa. Meu último pensamento como um ser vivo foram algo do tipo, eles realmente estavam seguindo a gente.
*
Look around, around, around...

Acordamos num quarto estranhamente familiar, mas sem sabermos bem onde estávamos. O mundo parecia meio embaçado, meio desfocado. Como se as cores tivessem sido alteradas. Nosso paladar e olfato pareciam meio dopados e sentíamos dor em cada maldito osso do nosso corpo.
Onde estamos?
Eu não sei.
Sim, você sabe.
O que aconteceu?
Você não lembra?
Não, não lembro. Me ajude.
Ouvimos vozes discutindo. Duas pessoas berravam bem perto da gente. Quase conseguíamos ouvir os gritos na nossa cabeça.
Deixe sua mente flutuar.

- COM QUE DIREITO VOCÊ ABRAÇOU ELE?
- COM O DIREITO DE QUEM NÃO QUERIA QUE ELE MORRESSE.
- HAVIAM OUTROS JEITOS DE EVITAR A SUA MORTE.
- PARTE DO CRÂNIO DELE ESTAVA EXPOSTO, NÃO CONSEGUI CONTAR QUANTOS OSSOS QUEBRADOS E ELE TAVA TODO DESFIGURADO. MESMO SE ELE SOBREVIVESSE COM O SANGUE, TERIAM GRANDES CHANCES DE ELE VIRAR UM NÃO-FUNCIONAL. É ISSO QUE VOCÊ QUER? DESPERDIÇAR TODO O TEMPO INVESTIDO APENAS POR DETALHES COMO IMAGEM PÚBLICA?
*soc, tow, pow*
Insira aqui qualquer onomatopeia para tapa forte pra caralho. Aquele tapa parece que foi dado na nossa cara. Aquilo nos deixou com muita raiva. Sentimos, pela primeira vez a ira vermelha subindo pelo corpo. Ainda bem que estávamos presos.
- Sua garota de tola.- O tom de voz voltou ao timbre mais sombrio, frio, calmo e assustador. - Depois de todos esses anos comigo, achei que você já tinha aprendido alguma coisa relevante. A vida de outros, principalmente do rebanho, não vale tanto quanto me expôr. Mas bem, vá ver a sua cria que pensarei em como resolver as suas falhas.
Pausa e silêncio.
Deve ter demorado uns 50 minutos até B aparecer. Vê-la foi quase como ver um anjo. Na época, não saberíamos dizer o que estávamos sentindo, mas era algo bem próximo ao amor.
Não vamos entrar em detalhes sobre como foram nossos primeiros dias, pois você tem uma ideia de como foi. Passamos a primeira semana amarrado naquela cama enquanto conversávamos e provávamos que não iria fazer nenhum tipo de besteira como tentar voltar para a minha vida.
Depois de termos sido transformado, nossa rotina passou a seguir um ritmo constante. MUITO acelerado, mas constante. Éramos realojados a cada 4 meses, sempre morando em quartos escuros que tinham uma cama, livros, abajur e espaço para treinar.
Passamos 7 anos tendo contato apenas com B e Jeremias. Eles vinham visitar 3 ou 4 vezes na semana, sempre sozinhos e nos treinavam nas atividades mais variadas. Jeremias falava sobre a vida vampírica, sobre artes, exercícios, filosofia, etiqueta e cultura geral. B falava sobre a família, a loucura, ocultismo, a Rede e os dons vampíricos.
Em 3 ocasiões especiais, recebi a visita de Leon. Em cada visita, ganhei uma personalidade nova: Stephany Todd (baseada em B), Isaías Shepherd (baseado em Jeremias) e Ley Stampler (baseado em Leon). Não vou falar sobre eles, pois ainda me dói muito pensar naqueles que se foram. Além desse lance das personalidades, Leon versava sobre o nosso lado da família.
Não sabemos à partir de qual geração foi desenvolvido a linha do camaleão, mas sabemos que os membros do nosso ramo conseguem se ligar de uma forma diferente à Rede. Em diferentes situações e por diferentes motivos, conseguímos sintetizar um pedaço da Trama, buscar seu conhecimento e seu conteúdo criando uma nova entidade, com conhecimentos e personalidades próprios. O conhecimento e correta manipulação dessa habilidade permite criar vampiros extremamente e adaptáveis à qualquer tipo de situação.
No nosso caso, os laços são criados pela ligação de sangue. Cremos que, de alguma forma, quando nos enlaçamos à alguém, nosso cérebro se adapta ao sentimento criado pela pessoa que nos enlaçou. Esse processo de adaptação permite essa criação de um novo ser. Podemos dizer que somos os pais (junto com a pessoa que nos enlaçou) dessa nova personalidade.
O processo de liberação é um pouco mais dolorosos e depende de cada caso. Em alguns casos, pois precisamos praticamente matar essa personalidade, já em outros precisamos não darmos mais motivos para elas ficarem aqui. Além disso, quanto mais tempo, mais adaptado e maior seja a força de vontade da personalidade, mais difícil será destruí-la.
E a vida foi seguindo. Li, estudei, treinei a aprendi muito. Sabia que estava sendo preparado para algo, apesar de não ter ideia do que era.
*
Na terceira visita de Leon, ele me disse que meu treinamento recluso estava chegando ao fim e que iria trocar a vida de Tremere aprendiz para uma vida no mundo lá fora.
Quando ele disse isso, achei que finalmente iria conviver com outros vampiros ou usar meus dons para poder curtir uma vida boa, mas estava errado. A noção de vida no mundo lá fora era que poderia viver num cubículo 2x3, numa vizinhança barra pesada da zona leste (não que existam vizinhanças boas na zona leste, mas aquela era especialmente ruim), com direito a sair 3 vezes por semana para me alimentar e trabalhando dentro de casa fazendo sacolas.
Ao me apresentar ao meu novo cafofo, B me explicou que se sobrevivesse dois anos seria promovido de um grupo semelhante ao Esquadrão Suicida (tive que pesquisar para entender que ela estava falando daquele time dos quadrinhos) e poderia não morrer imediatamente se falhasse em alguma missão.
*
De alguma forma, consegui sobreviver. Se existe algum Deus, ele deve ser malkaviano. Cheguei muito perto de ser descoberto e quase me tornei mestre em ofuscação nesse período.
Nesses anos de serviço, aprendemos um pouco sobre onde tínhamos nos metido.
Ele tem algumas personalidades, a que mais fala comigo é a o Stanley. Creio que as personalidades dele tem alguma ligação direta com o nome delas. Afinal Stan é o apelido natural de Stanely e é terrivelmente parecido com Satan (apesar de ser bem acurado). A personalidade que se apresenta ao mundo é Leon e parece ter vindo de camaLEON como a nossa linha. Ainda cremos visto uma terceira personalidade que era mais marcial e voltada para o combate (foi essa a personalidade que te ensinou a despertar as outras).
Conhecemos três personalidades de B: Beatrice, Bianca e Bill. A princesa doce, a rainha louca e o príncipe guerreiro. Você conheceu apenas Bianca com a sua loucura, mudanças de humor e vício pela vitae e Bill com seu jeito prático de ver as coisas que é capaz de estacar a própria cria para ela aprender a ser um malkaviano de verdade.
Você não conheceu Beatrice e isso é algo que deveria te deixar triste. Beatrice é como um frescor de primavera no nosso mundo hostil. Ela é a garota por nos apaixonamos, que passou tanto tempo conversando conosco e discutindo sobre as mais diferentes coisas. Meu coração se alegra só de lembrar da forma como ela mexia a cabeça para tirar a franja de cima dos olhos ou a forma como ela me encarava mascando chiclete e conversava comigo.
Poderíamos preencher mais de dez cartas só para falar sobre ela, mas cremos que isso não seja tão necessário.
Leon é o criador de B e parece ter alguma influência na cidade. Ele se juntou a alguns outros membros/mortais de certa influência e criaram um grupo sem nome que eles chamam de a Organização.
Ela é uma organização paramilitar multidisciplinar/culto de guerra/tentativa de um grupo de seres poderosos de não morrer para os planos de outros seres poderosos. Nessa vibe meio culto meio grupo militar, ela não força ou evita guerras, apenas espera, se prepara e toma um lado.
Ela funciona em células espalhadas por todo o país (talvez por todo o mundo). Essas células são semi-independentes ou pelo menos as células daqui de São Paulo sejam assim.
O tempo que ficamos em São Paulo, lidamos com uma (ou algumas) célula(s) paulista(s).

Mas o que mais importa, e como importa, foi que sobrevivemos e fomos promovidos a um time menor da organização. Apesar de não ser muita coisa, já era o suficiente para não morrermos instantaneamente numa falha.
Em todo o meu tempo de vampiro, consegui descobri poucas coisas sobre a Organização. Pra ser sincero, você descobriu muito mais do que. Mas vamos ao que descobri:
  1. A Organização não possui um nome em especial;
  2. Ela é uma organização paramilitar multidisciplinar/culto de guerra/tentativa de um grupo de seres poderosos de não morrer para os planos de outros seres poderosos;
  3. Ela funciona em células espalhadas por todo o país (talvez por todo o mundo);
  4. Ela possui recursos;
  5. Ela não força ou evita guerras, ela apenas espera, se prepara e toma um lado;
  6. Existem pelo menos 3 níveis na organização: as pessoas que aparentemente mandam, as pessoas que não morrem imediatamente ao cometerem um erro e as pessoas que morrem ao cometerem um erro;
Enquanto era membro do Esquadrão, trabalhava sozinho. Recebia mensagens de um celular especial dizendo para onde deveria ir. Lá encontrava um pacote com equipamentos e informações da missão. Nunca me envolvi ou soube quem eram os outros membros ou no que realmente estava trabalhando.
Quando fui promovido, B me acompanhou em alguns trabalhos. Foi num desses trabalhos onde as coisas começaram a dar errado, de novo.
*
O trabalho era relativamente simples. Perigoso, mas simples. Iríamos com um carniçal até perto de uma base anarquista para copiar alguns arquivos militares de um computador de uma sala em especial.
Não sei em que ponto nós falhamos, mas enquanto estávamos copiando os arquivos, a sala foi invadida. B conseguiu se ofuscar, mas não fui tão rápido. Não importa o quão vampírico você seja ou o quão bem treinado você esteja, uma bala de semi automática sempre dói. Céus como aquilo doeu. Meu último pensamento antes de cair foi que deveria ter ofuscado mais rápido.
*
Acordei no meu quarto, recebendo uma transfusão de sangue, meu corpo me sentia um queijo suíço cheio de sangue. Meu cabelo já estava duro e seco, assim como minha roupa, assim como a coberta, assim como a cama, assim como todo o resto do maldito quarto.
B estava no telefone, ela falava num tom rápido enquanto andava pelo quarto. Já tínhamos aprendido a usar os auspícios para futricar nas ligações alheias e conseguir ouvir ela falando com Leon.
- Foi terrível – disse ela – acho que eles descobriram o segurança, ou tinham algum tipo de defesa no computador. Não sei. Só sei que que quase morremos.
- Ao menos, vocês conseguiram a informação?
- Bem, parcialmente, não tudo, mas não tenho...
- Ótimo. - Cortou ele – vocês acham que foram vistos ou identificados?
- Não tenho certeza. Talvez sim. Tomei minhas precauções com aqueles que consegui ver, mas existem as câmeras. E se eles pegaram Tobias, bem, provavelmente …
- Entendo. Então realmente, precisarei adiantar um dos planos. Como está o garoto?
- Ele está aqui deitado na cama, recebendo uma transfusão de vitae, fingindo que está dormindo para ouvir essa ligação.
- Estaque-o que depois passarei mais informações.
Ao ouvir isso, tentei me levantar e fugir, mas estava muito ferido e fui facilmente estacado pela B.
*
Acordei uma semana depois. No mesmo quarto, com uma mala preparada na minha frente. Leon estava sentado com as pernas cruzadas olhando pra mim. Sua roupa bem alinhada, seu olhar sereno e sua cadeira bem estofada contrastava totalmente com o resto do quarto ainda ensanguentado. Havia uma mala de viagem na sua frente.
Uma vez disse ao fundo: a julgar pelo tom do sangue, ficamos 2 ou 3 dias apagados, a roupa e a postura indicam que ele passou por bastante trabalho e está numa posição de liderança e sutil afetamento, quase como um Ventrue...
- Finalmente você acordou, quero que você preste bem atenção e só faça perguntas quando for lhe dado à palavra, pois temos algum tempo mas ele precisa ser bem utilizado. - Me sentei para ouvir melhor as instruções. - Sua existência está ameaçada aqui e ter você aqui me colocará em uma possível situação de risco. Normalmente isso traria a sua morte, mas você já mostrou seu valor e lhe concederei o privilégio de poder viver. Falei com alguns associados [será que era a associação?] e consegui negociar bons termos. Preste bem atenção atenção no que eu expliquei para meu associado:
1º Minha cria abraçou por impulso uma pessoa que estava de olho há algum tempo;
2º Esse neófito trabalhou por algum tempo para mim e eu estava quase conseguindo trazer essa cria ao público sem causar nenhum tipo de mal-estar na cidade;
3º Ele e minha cria cometeram uma falha em um determinado trabalho e estão sob risco de vida;
4º Mandarei cada um para o exílio em um lugar diferente, com as memórias de meu último descendente apagadas para ele achar que é um neófito abandonado;
5º A cria trabalhará em troca de abrigo, segurança e moradia até ele conseguir se manter vivo;
6º Meu associado tem plenos direitos de fazer o que quiser desde que não leve a cria à morte final e corrobore com a história do neófito;
7º Minha assinatura nesse contrato se dará por você se ligando ao sangue com meu associado.
- Alguma pergunta?
Balancei negativa a cabeça.
- Ótimo, agora vamos aos pontos que VOCÊ precisa saber:
1º Não vou apagar a SUA memória.
2º Quando você se enlaçar, será um novo EU para você;
3º Modificarei a memória de seu NOVO eu;
4º Foi foi abraçado por acaso, quando acordou encontrou ESSA carta [agora você já sabe como conseguimos a nossa carta];
5º Você usará esse tempo em Florianópolis para TREINAR e se aperfeiçoar. Dentro de 10 ou 20 anos acontecerão eventos tumultuosos e quero ter bons soldados.
- Alguma pergunta?
Balancei novamente a cabeça.
- Ótimo. Agora vem a última parte do que precisamos fazer. Mas não serei quem fará isso. O próprio Leon será responsável por levar seus outros EUs ao alento. Change.
Foi a primeira vez que vimos ele mudar. Num simples piscar, os olhos dele mudaram daquele azul gélido para o castanho tão calmo, doce e tranquilo.
*
Uma personalidade não some simplesmente. Não é o tipo de coisa que pode simplesmente morrer. Esse é um ponto importante e quero que você preste realmente atenção nisso. Cada personalidade É parte de você. É parte de nós. Somos todos um, mas o sangue que corre em nossas veias potencializa cada parte e cada traço, junta com o sangue que recebemos e acaba criando um novo ser.
Quando você olhar novamente para suas personas quero que você entenda que existe um pouco de cada um dos seus aliados dentro de você.
O processo de encontrar o alento consiste em compreender isso e se tornar uno com a sua persona e notar que não existe razão para que a sua mente esteja separada se podemos estar juntos (em outras palavras, você precisa não dar mais motivos para aquele pedaço da sua personalidade estar separado de você). Não é um processo fácil, mas é possível de fazer.
Depois de muito tempo, conseguimos levar a um alento temporário Stephany, Isaías e Ley. Em algum canto de nossa mente, existem três personas quase tão velha quanto nós e que logo despertarão.
Depois dessa experiência quase que religiosa, Stanley voltou ao controle, se levantou e nos disse.
- Seu voo sai em 3 horas, aproveite para tomar um banho, na sua bagagem tem instruções de onde ir. Você ficará na casa de uns conhecidos, sob a tutela de Jeremias. Mandei comprar algumas roupas e colocar algum dinheiro, isso deve te garantir o sustento por algum tempo. Lembre-se de me ligar quando você se enlaçar.
*
O resto da história você deve imaginar, conhecemos TK, você nasceu (juro que essa frase nos pareceu menos gay em nossa mente) e cuidou de tudo como se você existisse desde o princípio. TK cumpriu muito bem a parte dele e nos garantiu por mais de um ano nossa existência e cuidado.
O motivo pelo qual você se sentir tão aéreo e ausente quanto B veio ou quando encontramos Leon foi porque nós assumimos e cuidamos de tudo. Assim como fomos nós quem tomamos a facada de B e conversamos tanto com Leon naquela plataforma mental.
Agora, cá estamos, com nossas outras personalidades prestes a encontrarem seu verdadeiro líder. Espero que você tenha lido essa mensagem até o fim e que você entenda que o que fizemos foi pela nossa sobrevivência.

Com carinho,

 Michael Takiamura.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Crônicas Vampirescas - Kuwabara e Emanuele I Pt. 1

Em todos esses meus seis anos como vampiro, aprendi que existem vários sinais que demonstram que a noite será terrível: acordar e ser atacado, acordar e encontrar alguém encarando você com cara de mal, acordar e encontrar uma arma encarando você, etc...
Mas, são poucas as coisas que dão um sinal tão claro quanto você acordar e ver que seu corpo acordou bem antes do e está caçando, sendo que você não faz ideia de quem é que está controlando-o. 
Como vocês conseguem imaginar, foi bem assim que eu comecei minha noite. Com a boca no pescoço de um cara grande, forte e com um chapéu engraçado. Para meu espanto, todas as personas conhecidas estavam no backstage junto comigo. Isso só significava uma única coisa, problema novo. Esperei o meu outro eu terminar de se alimentar, me aconcheguei no trono do rei e fiquei tentando absorver ao máximo sobre meu novo companheiro.

Existem poucas coisas melhores do que acordar após um looooongo sono, ter uma boa foda e sangue à vontade. Parece que fiquei dormindo por tanto tempo que sinto vontade de mergulhar não somente as minhas presas, mas todo o meu corpo nesse pescoço e ir aproveitando cada milímetro de pele desse marinheiro. Infelizmente, tenho pouco tempo livre. Estou de volta à América e tenho um mundo para conquistar.
Termino de me alimentar. O gado me serviu bem. Sigo ofuscada pelas sombras. Estou procurando uma senhora indefesa que se compadeça de alguém que foi assaltado. A história que irei contar para ela é tão ruim que poderia ganhar um Oscar de melhor enredo. Sigo olhando as pessoas, quando ouço uma voz falando comigo:
- Hey, vá para um lugar reservado para podermos conversar.
A voz parecia estranhamente familiar e vindo da minha cabeça. Deixando meus planos de lado, entro no primeiro beco que eu encontro e me jogo nas latas de lixo. 

Ótimo. Ele parece não ter me ignorado. Não quero nem pensar nos problemas que eu teria se ele não quisesse falar comigo. Não consegui absorver muita coisa sobre meu novo companheiro. Vi que o rosto dele parece todo cortado e cheio de cicatrizes (acho que ele é do tipo brigão), ele se move com uma grande graça como se estivesse flutuando e possui olhos atentos.
Espero ele se sentar.
Latas de lixo.
Ele realmente tem influência de nosferatus. Dou algumas instruções no backstage e tento iniciar nossa conversa.

Me aconchego. Ouço aquela voz conversar com o vazio ou com pessoas que ele parece ter certeza que estão ouvindo:
- Remy, meu bispo, caso alguém apareça e nos veja aqui, tente desconversar e fazer ela sumir. - Finalmente me lembro de onde conheço essa voz. Claro, fui tão estúpida. 
- John, meu cavalo, se ele falhar e precisarmos de chumbo, você se torna responsável pela nossa segurança. - Num instante, todas as memórias dos últimos dias vieram a mente. Os trabalhos, as conversas, os personagens, as vozes, a transformação...
- Sensei, minha rainha, na minha ausência, você é responsável por tudo e por manter o corpo em ordem.

Depois de passar as instruções, ficou aqueles segundos de um silêncio constrangedor. Ele parecia mais ansioso para conversar comigo, mas eu não sabia como começar o papo. Afinal, não é todo dia que você nota que o seu cérebro se partiu mais um pouco. Fiz a primeira pergunta que me veio à mente:
- Você me reconhece por quem sou e pelo o que faço?
- Sim. - A voz dele é bem mais doce e suave do que eu esperava, não combina em nada com o local que estamos ou com o seu rosto.
- E o que você vê em mim?
- Você é Michael Kuwabara, filho mais novo dos vendedores de macarrão que presenciou a morte dos pais e tentou se tornar um justiceiro por causa disso.
Ok.
Ok..
Ok...
Céus. Nada ok. Ele realmente sabe quem eu sou. Ou pelo menos acha que sabem. Ignorando as outras perguntas que tinha preparado mentalmente (coisas do tipo quem é você e o que você faz), resolvo ir direito para o que é mais importante. 
- Como você sabe quem eu sou?
- Ora, benzinho. Fui quem criou você.

Ele não conseguiu disfarçar o choque ao descobrir a verdade. Pobre Kuwabara, sempre foi tão nobre mas tão ingênuo em seus ideais. Tolo curioso. Vou conseguir incomodar muito ele por causa disso. Começo, debochando dele e repetindo o que ele disse, numa ótima imitação, digo: 
- Imagino que você tenha uma história que queira me contar. - Volto ao meu tom normal - Sim, você imagina. Assim, como quase tudo na sua vida, você só vai ficar na imaginação.

Que pessoa irritante. Já to de saco cheio desse tipo de coisa e de pessoas achando que podem me dar ordens dentro da minha cabeça. Pego ela pelo pulso e levo-a à força para algum quarto no backstage. Espero que o Remy não seja estúpido a ponto de querer sair do local onde estamos escondidos. 
Dentro da minha própria mente, cada persona assume uma aparência e roupas verdadeiras sem as limitações do mundo externo. Nesse ponto, tive a primeira surpresa sobre meu novo companheiro. No fim das contas, ele é ela. Ela tinha um cabelo escuro e liso que ia até o ombro, lábios carnudos, olhos castanhos e um sorriso infintamente debochado.
- Uuull. Pelo visto, você andou ficando mais machinho nesse tempo que eu passei dormindo.
Sei que ela fala isso me incomodar e tentar fazer o sair do sério. Não vou cair assim tão facilmente. Uso meu olhar mais gélido e ordeno.
- Me conte a sua história.
- Ah, quanta frieza e poder - ela leva as mãos a boca numa caricatura de impressionada. Ela vem caminhando suavemente até perto de mim. Perigosamente perto. Nossos narizes estão quase se tocando e isso não parece incomodá-la. - Você sabe como dizem: conhecimento nunca vem de graça. Você está disposto a sacrificar parte da sua sanidade para saber mais sobre mim?

Hmmm... Que gostosinho. Faz tempo que eu não o sinto em meus braços. O tesão é grande e a forma como ele sorri ante a minha pergunta, só ampliou a vontade que estou de fuder com ele a noite toda. Mas preciso me controlar. Para jogar com Kuwabara é necessário fazer ele crer que não está controlando nada, mesmo quando quem está perdendo o controle e subindo pelas paredes são eu.

- Ótimo - riu ela mais uma vez - A sua curiosidade, ainda vai matar você. Mas que, é Emanuele Redcliff para dizer como qualquer um deve viver a própria vida?
Num movimento rápido, ela segurou minhas mãos e me empurrou contra uma parede que até alguns instantes atrás não estava ali, lambeu minha orelha e continuou:
- Seja bem vindo ao inferno, garoto. Eu serei sua guia.

Crônicas Vampirescas - Fotos do Time Todo

John Dean




Stephanny Todd

Remy Poirot

Norioshi Kasuke

Julius Basi

Emanuele Redclieff

Yohan George



Jean Dechain

domingo, 9 de março de 2014

Crônicas Vampirescas - Kuwabara V (ou VI)

Mais uma vez, nosso adorado e um tanto atrapalhado personagem volta com suas histórias. Numa prova de que a Trama existe, tanto eu quanto o Ton, estavámos pensando em dar múltiplas personalidades ao personagem. Essa é a minha proposta.
ps.
Não parei de escrever, apenas ando esquecendo de publicar. Um dia, até o fim do ano, eu publico tudo o que eu ando escrevendo.
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Acordo. Dor de cabeça. De novo tudo preto. Isso já está se tornando um péssimo hábito. Se tivessem me tido que o grande problema da condição vampírica é que você não consegue ter uma maldita noite de sono normal, teria pensado duas vezes antes de querer ser transformado...
Pensando bem, eu não quis ser transformando.
Me levanto. A dor diminui. Não tenho ideia de onde estou. Resolvo dar uma checada geral para tentar entender o que está rolando. Estou vestido, sem arma, com o colar de lágrima, usando um all-star botinha vermelho numa trilha de tijolos dourados. Ótimo, quem organizou isso tem um bom senso de humor. Escolho um dos lados e começo a andar.
Após algumas horas [minutos?] de caminhada, vejo uma pequena fonte de luz. Deve ser meu objetivo mas não faço questão de apressar o passo. Se fui colocado tão longe do meu alvo, que meu alvo espere.
Chego mais perto, vejo que meu objetivo é um anão (ou uma criança) que está olhando para o lado, para fora da trilha. Apesar do tamanho, ele parece estar muito concentrado, com as mãos entrelaçadas atrás das costas e olhar pensantivo.
Ela, porque agora já consigo ver que é mesmo uma criança que está vestindo a mesma roupa que eu (apesar de haver algo estranho no conjunto todo). Quando fico a uns quatro metros dela, a pequena criança fala:
- Você demorou.
Não posso perder a chance de uma boa sacada e respondo:
- Você é quem me convou para longe daqui.
Ele suspira. Nenhuma resposta. Acho que é um a zero para mim. Ele faz um sinal para eu me aproximar e ver o mesmo que ele.
O cenário que ele me mostra poderia ter sido montado por algum paranóico por simetria. Vejo sete caixões iguais, dispostos em círculo. Dentro desse círculo tem uma cama que parece se alterar, mais ou menos como aqueles tazos de duas imagens, ora parecendo a cama da minha infância com detalhes de anjos (a diferença é que os anjos estavam presos com correntes) ora parecendo com o leito que eu acordei quando me transformei (com gárgulas no lugar dos anjos).
Em cada caixão, onde normalmente fica a janelinha para mostrar o defunto, há uma placa de pedra. Nessas placas, está litografado os símbolos de cada clã: a rosa, o espelho quebrado, a cabeça de cachorro, a máscara triste, as formas geométricas, o 'A' invertido e o cetro.
- O que é isso? - Pergunto para a criança.
- Acalme-se. Logo as respostas chegarão, mas você ainda não viu tudo. - Ele esticou o dedo, e pude ver que a roupa era uns dois números maiores do que ele, como se tivesse ganho de um irmão mais velho. - Veja um pouco acima dos caixões.
Seguindo a direção do dedo, vi que pequenas esferas coloridas acima dos caixões - Salvo na cama, pois a esfera da cama era de duas cores preto e branco. Cada caixão tinha a sua e elas mudavam de cor como as luzes de natal (aparentemente sem nenhuma ordem em especial). Uma dessas esferas, nunca mudava de lugar - o caixão malkaviano - e era a única com um desenho dentro dela. Com mais atenção, percebi que a esfera era de cor verde e o desenho lembrava muito um sanduíche de ovo feito com uma caneta muito grossa.
- Vá além dessas projeções mexicanas vagabundas. Deixe sua mente flutuar pelos padrões.
Fiquei encarando o sanduíche.
- Deixe as cores, o símbolo, a situação, te envolver.
Aquilo continuava parecendo um sanduíche de ovo.
- Você está perto da noite mais densa. Não temos tempo a perder. Abra os olhos da mente.
Noite mais densa. Claro. Como pude ser tão cego? No dia mais claro, na noite mais densa, o mal sucumbirá ante a minha presença, todo aquele que venera o mal há de penar, quando o poder do Lanterna Verde enfrentarAs cores, cada uma delas representa uma das cores do arco-íris, cada uuma representa uma das tropas, então cada uma também deve representar um sentimento.
- Vejo que finalmente você começou a entender. - Ela diz me encarando com verdadeira paixão nos olhos. - Respondendo a sua pergunta, aqueles, assim como eu e você, são você, apesar de não serem. Eu não tenho tanta certeza da causa - ele começou a divagar - mas, creio que seja uma mistura da solidão, medo de lidar com as pessoas e dificuldade para realizar certas tarefas que deram a semente de nascença para as suas outras personas. Contudo, tenho certeza que foi o Sangue, a Rede e a convivência com os seus iguais que deram a forma para eles.
Continuei fitando e tentando absorvar o máximo de informação que aquela cópia/irmão/outro-eu/mini-eu tentava me passar. E ele contina: - Cada um dos caixões representa uma personalidade, uma identidade totalmente nova, com medos, angústias, forças e fraquezas próprias. Cada um deles terá um grande motor moral que irá conduzir as suas atitudes. Esse motor está ligado com as cores e símbolos que você viu: força de vontade, amor, esperança, compaixão, ira, esperança e ganância. Contudo, eles ainda não estão completos. Talvez algumas dessas personas nem cheguem a ser concluídas. Para elas crescerem, você precisa alimentar elas. Quanto mais atenção e força você dá, mais forte e definida a persona fica. Você tem mais alguma pergunta?
- E a cama, o que ela representa?
- Ahh, como pude esquecer das camas... - Um sorriso corta o seu rosto, aquele sorriso de quem ri de uma piada que somente ele entende e que está louco para compartilhar com as outras pessoas. - Assim como a Torre Negra fica no cruzamento dos 6 feixes de luzes, nós dois ficamos no cruzamento das personas. A cama representa as duas faces do seu ser. A humana e a vampírica. O Mortal e a Besta. A Sensatez e a Loucura. O yin e ou yang.
- E por que você está me mostrando isso?
- Ora, sou sua mente malkaviana, compartilhamos os pensamentos e desejos. Você quer saber como os membros da nossa família lutam. Estou mostrando uma das nossas nossas armas, uma das principais armas do nosso lado da família. Enquanto os seus adversários não souberem o que esperar, você sempre estará a um passo na frente deles. Quando chegar a hora luta, mude. Deixe cada persona fazer o que ela sabe que tem que fazer e confundir totalmente o adversário. 
- E como eu... - Ele me corta, levantando a mão e diz: - Não temos tempo para isso. Está quase na hora de você acordar. Fique tranquilo, sei que na hora certa, você saberá como agir.
O mundo começou a se desfazer. Do outro lado, senti alguém mexendo em mim. A última coisa que eu pude ver o meu eu livre dizer foi: - Quando todos estiverem prontos, teremos uma fila com os oito peões prontos e finalmente vamos começar a nossa partida. Até lá, adeus...

...E acordei

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Poemas niilistas em cem palavras

Ele esticou as pernas,
recostou na poltrona,
olhou para a janela.
Amanhã vou levar a vovó para visitar àquela amiga.
Então, morreu.


Ela ganhou na loteria,
vencedora única,
poderia ajudar os netos,
viajar para ver os parentes e
finalmente fazer o um novo canteiro para as flores.
O velho coração não aguentou e morreu.


Ele caminhava com a prancheta e caneta na mão,
fazendo anotações para os próximos poemas.
Não viu a pedra solta.
Escorregou e caiu de joelhos.
Tentou apoiar a prancheta para se levantar,
escapou,
caiu de novo, quebrou o pescoço e morreu.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Crônicas Vampirescas - Kwuabara

Mais um texto do nosso malkaviano mais querido e perdido de todos.
Dessa vez, não fui eu quem escreveu, apenas o Ton que foi anotando o que ele ouvia enquanto mestrava. O resultado foi épico =D
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Enquanto espera por Kuwabara, Walter [um tremere] reúne os materiais que não vai mais utilizar, aparentemente encucado com a prontidão com que o Malkaviano se propôs a ajudar. Batem à porta três vezes e o doutor atende o japonês apenas de jaleco e cuecas, o que causa estranheza ao recém-chegado que pede que o tremere coloque roupas. Eles conversam sobre metanfetamina, mas principalmente pela máscara de gás que Walter estava usando, e que não era necessário, já que ele é um vampiro e não precisava.
A conversa dura mais tempo do que deveria, e o papo parece rolar mais pela loucura de Kuwabara do que pela genialidade de Walter, o que é um pouco preocupante. Há uma tensão no ar, causada pelo japonês com a preocupação de uma invasão e a possibilidade de lutas. Ainda assim, ele parece entusiasmado com a proposta, principalmente porque ele está interessado no corpo de Walter, o que causa ainda mais estranheza. A loucura parece aumentar quando Walter pede a Kuwabara que ele lhe dê sangue, o que o malkaviano não entende muito bem.
De repente surge a necessidade de fazer uma suruba com várias pessoas que provariam o sangue de Kuwabara. Walter novamente esqueceu o nome de Daniel, e força sua memória para lembrar.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Canção do Pescador

Eu não trabalho pelo dinheiro;
quem trabalha pelo dinheiro esqueceu o rosto do seu pai;
eu trabalho por um ideal!

Eu não estudo para ser melhor do que os outros;
quem estuda para ser melhor do que os outros esqueceu o rosto do seu pai;
eu estou para ajudar as humanidade!

Eu não escrevo para fugir dos meus demônios;
quem escreve para fugir dos demônios esqueceu o rosto do seu pai;
eu escrevo para transcendê-los!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sobre ter 22 anos

Certa vez, li um texto de SK sobre ter 19 anos, todas as dúvidas, medos e certezas.
Não lembro de quase nada desse texto, apenas que era fazia parte da introdução do primeiro livro da Torre Negra.

Pois bem, cá estou. 3 anos depois de ter começado 19 anos, no blog que comecei a escrever logo depois de ter completado esses tão falados 19 anos.

Muita coisa mudou, alguns ciclos foram completos, outros estão para se completar e já alguns eu não sei se algum dia estarão completos (pois como disse o Amigo, existem coisas que sempre me acompanharão).

E, mesmo assim, cá estou: saí da casa dos meus, arranjei um emprego, passei por uma depressão, estou prestes a me formar, prestes a fazer a prova para preletor, estudando eletrônica, jogando RPG mensalmente, sendo bolsista de dança de salão, com moto, apartamento e uma planta de estimação.
Estou praticamente mais ou menos no ponto onde eu imaginei que estaria, mas minhas certezas mudaram totalmente de lá pra cá, assim como vários outros planos.

Creio que o fato de eu não ter anotado esses planos fez com que esse tipo de situação ocorresse. Então, pelos poderes concedidos a mim, pela boa aleatoriedade, eu declaro meus planos até meu aniversário de 24 anos:

* Me formar;
* Me tornar um LI;
* Trocar de moto;
* Trocar minha cama por uma cama aérea com escritório e oficina embaixo;
* Dançar um bom samba;
* Conseguir uma promoção ou trocar de emprego;
* Pilotar até o RS;
* Pilotar até o PR;
* Acampar;
* Conseguir escrever um texto em japonês;
* Conseguir dançar um bom samba;
* Sair do País;
* Fazer uma caminhada tão grande que eu me orgulhe dela;
* Construir um robô;
* Construir uma power glove;
* Comprar um datashow;
* Comprar um tapete para a sala;
* Aprender a fotografar;
* Conduzir um ensaio sensual/erótico;
* Trocar de computador;
* Voltar a andar de bicicleta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Crônicas Vampirescas - O Sonho - Pt. 3

Finalmente terminei o texto. Resolvi esperar um pouco para escrever a conclusão porque queria ver qual conceito usaria e como o nosso bom e velho Kuwabara iria mudar e melhorar (ou não xD) com o passar das sessões.
Sempre acreditei que a essência do RPG é contar uma história com os amigos e se divertir no processo.
Espero que vocês se divirtam lendo tanto o quanto eu me diverti escrevendo ou jogando...
Antes que eu me esqueça, quero agradecer ao Ton, à Ann, a Ariana e ao Hiro por me ajudarem a contar essa história.
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     Então é assim? Vou morrer após todo esse trabalho?
     Vou morrer na mesma posição de luta, contra o mesmo adversário, com ele usando o mesmo golpe? 
     Está tudo acontecendo como antes.
Quando foi o antes? 
     Sinto como se tivessem passado anos desde que tudo re-começou. Não me lembro mais quem eu sou, como vim parar aqui ou como tudo isso começou.
     Que droga. Ele continua a me encarar com a espada na linha dos olhos, em uma posição defensiva perfeita. Sei que se eu atacar, ele vai se esquivar, mas não posso fugir e ele não ataca. Como vou derrotar ele?
     - Você é fraco e sem fé. - Disse ele. Mesmo atacando várias vezes, não consegui acertá-lo nenhuma vez. - Suas motivações são fracas, você é fraco, você não sabe contra quem luta ou porque luta. Eu deveria me sentir ofendido pelo simples fato de você levantar sua espada contra mim.
     Não sei o que houve de diferente nessa situação. Não era a primeira, nem a segunda vez que ele me criticava, contudo, ele finalmente conseguiu me irritar bastante, dessa vez e resolvi dar um basta nisso. Mesmo que isso significasse minha morte.
     - Cara... Por que você não vai encher o saco de outro? Quantas e quantas vezes você já não fez essa pergunta para mim? - E conforme as palavras foram saindo, mais palavras quiseram pular para fora da minha boca - Eu não sei porque eu luto. Eu simplesmente não sei. Assim como não sei porque um cachorro corre atrás do próprio rabo.
     - Eu luto pelo fato de que não consigo me imaginar fazendo qualquer outra coisa. É como se fosse algo para o qual eu nasci. Encontrar o cara mais forte, mais poderoso e com mais cara de mal e tentar derrubá-lo. Claro que por causa dos meus pais, eu tento focar para enfrentar os "caras maus", mas se não tivesse algum cara mal, eu iria criar um para enfrentar. Pelo fato de que eu não consigo ficar sem uma briga.
     - Sou viciado na emoção do combate. Tento disfarçar isso de bons atos e caridade, mas levantaria minha espada contra meus aliados se eu não tivesse um bom inimigo para enfrentar.
     De repente, é como se tudo tivesse clareado na mente.
>TUDO ESTÁ CLARO E EVIDENTE<
     Certa vez, meu pai me disse que em alguns momentos da vida, nós passamos por situações onde aparece um elefante na nossa sala de TV. Convivemos normalmente com esse elefante até que, em algum momento, notamos que o animal está lá. Depois disso, ficamos nos perguntando como não conseguimos ver um paquiderme com uma saia de bailarina e um chapéu de aniversário na nossa sala.
     Aconteceu a mesma coisa quando notei que ela estava lá. Mais do que isso, ela sempre esteve lá. Esperando uma oportunidade para se manifestar. Para mostrar o mundo como ele realmente é. Graças a ela, pude ver o mundo com mais cores e ver as pequenas engrenagens que fazem o mundo girar. A grama deixou de ser grama e passou a ser extensão dos meus pés, as árvores se tornaram meus braços e meu corpo se fundiu à terra. O mais importante de tudo isso, foi minha mente. Ela se tornou uma com todos os pensamentos dos meus irmãos. Ela se fundiu a todos os seres.  A febre tomou conta do meu corpo e da minha mente. Novas cores surgiram. Meu adversário já não é mais meu adversário, sou eu tentando me esfaquear, ao mesmo tempo é o Raio e o Trovão, ao mesmo tempo são as letras, o príncipe, o chefe, o xerife, o primógenie, todos os primógenies, minha criadora, todos os vampiros e humanos. Pois todos estão ligados e conectados como num grande castelo de cartas, prestes a desempilhar. 

     Finalmente, me lembrei que eu era.
      - Eu sou Kuwabara, cria de Malkav.
      - Eu sou Kuwabara, sou filho de B.
      - Eu sou Kuwabara, o Portador da Donzela das Neves(quando que eu troquei de espada?). 
      - Eu sou Kuwabara e não serei derrubado por ninguém, nem mesmo por mim.

     Por fim, de alguma forma, eu descobri como agir e o que fazer. Afinal, eu sempre soube. Sem perder de vista os olhos do meu adversário, coloquei a Donzela na bainha. Me sentei em posição de meditação, deixando minha arma no meu colo e entreguei minha mente à Loucura e minha alma ao Gelo...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sinto vontade de gritar.
De por tudo para fora.
De correr ou de enfrentar esse inimigo.
Mas não sei realmente o que estou enfrentando ou o que é meu adversário.

Que saco, ao menos quando estava depressivo, eu sabia o que eu tinha que enfrentar...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Bailarina Quebrada

A bailarina encantada
em seu belo mundo dançou
Até seus pés sangrarem
Até sua consciência se apagar
Com sua alegria, sorriu,
até seu mundo desabar

Bailarina quebrada
em um novo mundo acordou
Onde tudo era escuro e morto
amargo e sombrio
Onde a vida se escondia
Onde só havia dor
Onde não sobrara uma gota de amor

Bailarina quebrada
não adianta resistir
este mundo agora é seu
vais viver somente aqui
Até o fima de seus dias
Até o sufocar de suas noites
Sempre neste mundo torto e cinza
Infestado de desespero e caos

Bailarina quebrada
Se tornou cinza de vez
O tom carmesim sujando sua palidez
Sujando seu mundo cinza
colorindo seus mais desesperados
sonhos e desejos

Bailarina quebrada
que pálida e vermelha ficou
Não resistiu ao mundo das dores
e se apagou
Foi-se para o além desconhecido
e nunca mais voltou.

10/07/13